A escalada dos combates nos últimos dias deixou claro que o memorando de entendimento costurado entre Irã e Estados Unidos fracassou como instrumento de contenção. Em vez de pôr um freio ao conflito que se arrasta desde 28 de fevereiro, a sequência recente de ataques ampliou o foco sobre alvos civis: pontes, hospital, usinas de dessalinização, instalações de produção de combustíveis e até canteiro de obra de uma usina nuclear foram afetados.

De um lado, Washington voltou a autorizar bombardeios sobre alvos no Irã; de outro, Teerã intensificou golpes contra pontos no Golfo — incluindo ataques a bases americanas na Jordânia, Bahrein e Kuwait — e a infraestruturas que asseguram água e energia. O efeito prático é duplo: dano direto a serviços essenciais e aumento do custo humanitário, com relatos de comunidades privadas de água após destruição de instalações de dessalinização.

Especialistas consultados no material-base descrevem o acordo como uma construção com prazo curto de validade. O major-general Agostinho Costa avaliou que o memorando teve caráter tático e não foi concebido para ser cumprido, ligado a pressões sobre reservas estratégicas de petróleo. Para ele, a disputa toca a própria influência norte-americana na região, tornando o conflito também uma batalha por hegemonia geopolítica.

O cientista político Ali Ramos ressalta que, apesar de mudanças no tabuleiro, os objetivos declarados pelos EUA — desmantelar o programa nuclear e balístico iraniano e reduzir o apoio a milícias — não foram atingidos. A resposta americana, segundo analistas, tem privilegiado ataques aéreos que historicamente mostraram resultados limitados contra um país com capacidades de dissuasão e redes regionais robustas. A consequência é uma gestão da escalada que pode prolongar o conflito sem garantir vitórias estratégicas.

No plano prático e político, a situação complica a narrativa americana e amplia riscos para aliados regionais: a escolha por ações que atingem infraestrutura civil tende a fortalecer a legitimidade interna do regime iraniano e a recrudescer ressentimentos na região. Para os Estados Unidos, resta o desafio de traduzir poder militar em resultados políticos tangíveis, sob o risco de verem sua margem de manobra e credibilidade enfraquecidas diante de uma guerra que volta a consumir vidas e serviços essenciais.