Milhares de crianças em Gaza retornaram no sábado às aulas presenciais pela primeira vez em quase três anos, acomodando‑se em prédios escolares danificados, tendas e salas improvisadas. O Unicef afirma que 98% das escolas no enclave foram destruídas ou danificadas, e autoridades locais estimam que cerca de 660 mil alunos ficaram sem acesso regular ao ensino presencial durante o período mais agudo do conflito.
A reabertura, organizada pelo Ministério da Educação com apoio de agências internacionais e ONGs, é uma vitória simbólica, mas ocorre em condições mínimas: dezenas de escolas temporárias foram erguidas com lonas, chapas de metal e madeira, muitas sobre solo arenoso. Algumas salas têm apenas colchões e um quadro; várias também abrigam famílias deslocadas, o que limita espaço e privacidade para o aprendizado.
O impacto humano é pesado. Autoridades de educação relatam mortes em massa entre estudantes e profissionais: cerca de 22 mil alunos e mais de 770 trabalhadores da área educacional foram mortos, entre eles 532 professores, segundo o diretor regional citado por autoridades locais. Estudantes descrevem determinação para voltar às aulas apesar da falta de cadernos, canetas e até de calçados, e do medo persistente de ataques e tiros perdidos.
O retorno presencial deverá beneficiar aproximadamente 540 mil alunos em escolas improvisadas e centros de aprendizagem temporários, segundo estimativas que contam com apoio do Unicef. Mas a recuperação esbarra em limitações logísticas: as forças israelenses ainda controlam mais de 60% de Gaza e há restrições de importação que têm reduzido oferta e elevado preços de material escolar — um comerciante local relatou que o preço de um caderno subiu de 3 para 15 shekels. A agência israelense responsável pelo acesso não respondeu a pedidos de comentário; Israel acusa o Hamas de usar escolas para fins militares, o que o grupo nega.
O recomeço das aulas é, portanto, um marco frágil que expõe desafios políticos e humanitários maiores: reconstrução de infraestrutura, reabastecimento de suprimentos, apoio psicológico a crianças traumatizadas e garantia de segurança. Sem respostas claras sobre mobilização de recursos e coordenação entre autoridades locais, doadores e controladores de acesso, o avanço educacional corre o risco de ser temporário, com custo geracional para uma população já profundamente afetada pela guerra.