As atenções internacionais se voltaram a Islamabad quando delegações do Irã e dos Estados Unidos iniciaram negociações, hospedadas no Islamabad Serena Hotel. O diálogo ocorre sob forte esquema de segurança e com exigências formuladas por Teerã: suspensão dos ataques contra o Hezbollah no Líbano e o desbloqueio de ativos iranianos. Do lado americano, a postura é de cautela e pressão; a Casa Branca enviou como principal emissário o vice‑presidente J.D. Vance, que advertiu publicamente contra tentativas de engano e condicionou o avanço a negociações de boa‑fé.
O cenário externo torna a mesa de negociações ainda mais complexa. Em 40 dias de confrontos, as autoridades israelenses afirmam que o Irã disparou 650 mísseis contra Israel, com saldo oficial de 24 mortos e cerca de 7 mil feridos, enquanto o Ministério da Saúde do Líbano registra 1.953 mortos. As Forças de Defesa de Israel dizem ter matado 180 combatentes do Hezbollah em ataques recentes no sul do Líbano. Esses números explicam a pressão por um acordo, mas também os limites práticos das demandas: interromper operações militares e restabelecer ativos financeiros envolve interesses estratégicos e domésticos difíceis de conciliar.
Analistas locais ouvidos avaliam que algum tipo de entendimento pode ser alcançado, ainda que com pontos deixados para detalhamento posterior. O tenente‑general aposentado Talat Masood destaca o custo econômico global do conflito como fator de pressão sobre ambos os lados, e aponta temas espinhosos como a reabertura do Estreito de Ormuz e as ambições nucleares e de mísseis do Irã como entraves centrais. Outro estrategista, Hasan‑Askari Rizvi, considera provável um acordo parcial, motivado pelo desejo mútuo de evitar uma nova guerra aberta, ao menos no curto prazo.
As negociações em Islamabad têm, portanto, dimensão diplomática e política que ultrapassa a mera suspensão das hostilidades: um acordo frágil pode estabilizar rotas de comércio e aliviar volatilidade nos mercados de energia, enquanto um fracasso exacerbaria riscos militares e demanda de respostas — inclusive militares — que os Estados Unidos e aliados não descartam. Para Washington, o desafio será traduzir advertências em garantias credíveis sem empurrar Teerã para ações mais arriscadas; para Teerã, aceitar concessões internas pode ter custo político elevado. O resultado das conversas será um retrato do equilíbrio entre pressão internacional e imperativos domésticos de cada lado.