Às vésperas do término do prazo de consultas públicas sobre a investigação americana que pode resultar em novas tarifas a produtos brasileiros, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, criticou a ida do senador Flávio Bolsonaro a Washington. A viagem, prevista para a próxima semana, ocorre enquanto o governo federal tenta costurar um entendimento de última hora com autoridades norte-americanas na tentativa de adiar ou evitar sanções.

Rosa afirmou que a presença do pré-candidato em audiência pública tem mais dimensão política do que técnica: segundo o ministro, Flávio buscará um argumento para se resguardar de eventual responsabilização pelo impacto econômico das medidas. O chefe da pasta também questionou a sinceridade da mudança de postura do senador, sustentando que um posicionamento autêntico deveria vir acompanhado de reconhecimento público das ações que, na visão do governo, contribuíram para o processo.

A investigação americana foi aberta com base na seção 301 da Lei de Comércio dos EUA e já resultou, no passado recente, em tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros. O USTR apontou práticas consideradas 'irrazoáveis' em áreas como pagamentos digitais, decisões judiciais que afetariam plataformas e suposta vantagem de produtores brasileiros ligada ao desmatamento — itens que Brasília rejeita. O governo enviou aos EUA um documento com um roteiro para negociação, mas admite que pontos essenciais, como o funcionamento do Pix, permanecem fora do acordo.

Politicamente, a disputa alimenta a estratégia do Palácio em associar o clã Bolsonaro ao risco de novas sanções, expondo desgaste e criando um dilema para a oposição em ano pré-eleitoral. Ao mesmo tempo, o Executivo trabalha em duas frentes: buscar uma solução diplomática para evitar o chamado 'tarifaço' e preparar medidas de contingência caso Washington decida avançar. O desfecho até o fim do prazo de consultas terá impacto direto na narrativa econômica e na agenda eleitoral dos próximos meses.