O anúncio de um cessar‑fogo de duas semanas, condicionado à passagem segura de navios pelo estreito de Ormuz, reduziu momentaneamente a retórica belicista, mas não dissipou a incerteza sobre o fornecimento global de fertilizantes. Para o Brasil, cuja cadeia agropecuária responde por parcela relevante da economia, o risco é direto: interrupções no tráfego marítimo e elevação de fretes podem travar a chegada de ureia, o insumo nitrogenado mais usado em larga escala.

O problema é estrutural. O país importa mais de 90% dos fertilizantes que consome, enquanto a produção agropecuária sustenta uma fatia expressiva do PIB — uma combinação que torna o setor vulnerável a choques externos. Rússia e Irã têm papel central na oferta global: a Rússia responde por cerca de 25% das importações brasileiras de NPK, e o Irã é um fornecedor estratégico de ureia. Em 2025 o Brasil comprou cerca de US$ 72 milhões em fertilizantes do Irã, com aproximadamente 80% desse volume concentrado em ureia; o Catar também está entre os fornecedores relevantes e usa a mesma rota.

O efeito prático se espalha além do campo. A alta no custo dos insumos pressiona a produção de milho e soja, base das rações, e tende a provocar repasse para preços de carnes, frango e ovos no varejo. Há sinais de tensão: sindicatos e produtores em Pernambuco já fizeram protestos pedindo socorro do governo para aquisição de adubo. No plano macro, relatórios e projeções mostram aumento de preocupação com a inflação de alimentos — o boletim Focus registra piora nas expectativas e o Rabobank projeta alta de 4,6% nos preços dos alimentos até o fim do ano, acima do patamar estimado para 2025.

A dependência de embarques via Ormuz e a consolidação de arranjos comerciais como o barter — em que o produtor paga insumos com parte da futura safra, e navios voltam carregados de adubo — tornam a vulnerabilidade logística também um risco político. O episódio acende alerta para o governo e para o setor privado: sem ações para diversificar fornecedores, reduzir gargalos logísticos e estimular oferta doméstica, o Brasil pode enfrentar aumento de custos, perda de competitividade nas exportações e pressão social por medidas de compensação.