António Guterres chegou a Damasco neste sábado para uma visita de três dias que tem caráter simbólico e prático: é a primeira presença de um secretário-geral da ONU no país desde 2009. No aeroporto, a comitiva foi recebida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Asaad al-Shaibani, numa etapa que busca relançar o diálogo entre as Nações Unidas e as autoridades locais.

Segundo a ONU, a missão não se limita à recuperação material após mais de 13 anos de conflito: o objetivo declarado é também ajudar a lançar as bases de um futuro mais estável e inclusivo. O movimento ocorre em contexto sensível, mais de um ano depois de Ahmed al-Charaa assumir o poder e depor o ex-presidente Bashar al-Assad, quando a comunidade internacional tem exigido reformas e a construção de instituições eficazes.

O tom da visita mistura assistência humanitária com exigência política. Guterres deixa claro que apoio externo e financiamento para reconstrução tendem a vir acompanhados de condições: inclusão de setores diversos da sociedade e garantias de representação das minorias são parâmetros repetidos por doadores e organismos multilaterais. Sem avanços concretos nessas frentes, a ajuda pode ficar aquém do necessário.

Politicamente, a viagem funciona como termômetro. Para os novos governantes, o encontro com a ONU é uma oportunidade de legitimação internacional; para os países doadores, é um momento de avaliar se vale ampliar o compromisso financeiro e diplomático. O risco é que, se as instituições não se fortalecerem, a reconstrução se transforme em um processo fragmentado, com impacto direto na estabilidade regional.

A presença do secretário-geral reafirma o papel das Nações Unidas como interlocutor e facilitador, mas também expõe um dilema clássico: conciliar auxílio imediato à população com a imposição de critérios que visem transformação política. Nos próximos dias, as declarações e acordos firmados em Damasco serão lidos como indicativos do grau de confiança que a comunidade internacional está disposta a depositar no novo arranjo sírio.