As últimas leituras do Datafolha, examinadas em entrevista por sua diretora, Luciana Chong, explicam um quadro eleitoral que tem se mantido estável na superfície, mas com fissuras relevantes por idade. Um dado salta aos olhos: eleitores com 60 anos ou mais, que agora representam cerca de 23% do eleitorado, mostram preferências mais claras a favor de Luiz Inácio Lula da Silva no eventual segundo turno (55% contra 37%). Esse movimento dá ao presidente um núcleo de apoio demográfico comparável ao peso histórico do Nordeste, o que altera a geografia política da disputa e impõe ao campo oposicionista a necessidade de rever alvos e argumentos de campanha.

Na outra ponta, a chamada 'geração Lava Jato' — eleitores entre 35 e 44 anos que viveram e acompanharam o desdobramento do escândalo por grande parte de sua vida política — aparece significativamente mais inclinada a Flávio Bolsonaro: 53% contra 38% de Lula em simulações de segundo turno. Chong ressalta que esse grupo aponta corrupção como o principal problema do país com mais frequência do que outras faixas etárias. Politicamente, trata‑se de um segmento que não reage apenas a programas sociais ou a discurso econômico; sua rejeição ao PT tem motivações morais e de legado, o que complica tentativas de reconquista por meio apenas de políticas públicas tradicionais.

A análise do instituto também destaca que esta eleição é, em larga medida, movida pela rejeição: muitos eleitores escolhem com o critério do 'menos rejeitado' em vez de adesão a propostas. Isso ajuda a explicar por que candidatos de centro e direita fora da polarização têm espaço limitado até o momento. Do ponto de vista estratégico, a existência de um bloco idoso favorável a Lula e de uma geração média fortemente desfavorável ao PT implica decisões difíceis para ambos os campos. Para o governo, manter o engajamento dos mais velhos exige sustentar medidas que repercutam diretamente nesse público, enquanto a oposição vê na faixa 35–44 anos um filão de persuasão que pode ser explorado com foco em narrativa anticorrupção e renovação.

Há, finalmente, uma dimensão institucional e eleitoral mais ampla: se a eleição realmente se definir por rejeições, o cenário de segundo turno tende a ser apertado e decidido por mobilização e coalizões. Chong lembra que o período de campanha e a propaganda gratuita ainda podem influenciar rumos, mas os números expõem desafios claros. Para Lula, preservar e ampliar o capital entre idosos é vantagem concreta; para Flávio e a oposição, consolidar o apoio da geração Lava Jato e transformar rejeição ao PT em voto positivo será determinante. Em suma, as pesquisas do Datafolha não decretam um veredito definitivo, mas desenham linhas de força que obrigam candidatos a calibrar mensagens, prioridades e alianças.