Em entrevista à BBC em Teerã, Ebrahim Azizi — ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica e atual presidente da Comissão de Segurança Nacional do parlamento — afirmou que o Irã não vai renunciar ao controle do Estreito de Ormuz. Segundo ele, o parlamento prepara um projeto de lei, apoiado no artigo 110 da Constituição, que disciplinará o modo como serão concedidas permissões de passagem e medidas relacionadas à segurança marítima e nacional.
A declaração reforça uma tendência já percebida desde o início do conflito recente: a transformação do estreito em um instrumento de pressão. A via é um gargalo estratégico para o petróleo e o gás que saem do Golfo Pérsico; qualquer restrição ao tráfego provoca imediatamente choques nos mercados globais. Autoridades iranianas, sobretudo ligada à linha-dura e à IRGC, passaram a ver a capacidade de controlar ou condicionar o trânsito como um trunfo de dissuasão permanente.
A iniciativa legislativa anunciada por Teerã provoca reação imediata entre vizinhos e potenciais afetados. Estados do Golfo, em especial os mais atingidos pelos ataques durante as cinco semanas de guerra que levou ao cessar-fogo temporário, receiam a criação de um precedente que permita a um Estado monopolizar o regime de passagem em águas internacionalmente sensíveis. Autoridades de países árabes qualificaram a postura iraniana como equivalentemente hostil e advertiram para riscos à liberdade de navegação.
Omã surge como exceção relativa: Muscat, que controla a margem sul do estreito, participou de conversas recentes com Teerã para tentar garantir tráfego seguro, demonstrando que há canais diplomáticos abertos. Ainda assim, a sinalização de formalizar controle por lei tende a acender alerta entre armadores, seguradoras e governos consumidores de energia. A perspectiva aumenta a probabilidade de maior vigilância naval estrangeira, elevação de prêmios de seguro e pressão sobre cadeias de abastecimento — custos concretos que se traduzem em impacto econômico internacional.
O episódio também revela um rearranjo político interno no Irã. A militarização da resposta e a ascensão de vozes da linha-dura no pós-conflito indicam que decisões sobre o estreito não dependem apenas da diplomacia tradicional, mas de atores com perfil securitário. A iniciativa parlamentar de Azizi, se convertida em lei, complica a pista de desescalada, amplia o desgaste com vizinhos e exige dos principais interessados — EUA, Europa e importadores de energia — resposta coordenada para preservar a passagem e mitigar efeitos econômicos.