Em meio a mais uma rodada de ataques aéreos entre Irã e Israel, o comando conjunto das Forças Armadas iranianas — com forte influência da Guarda Revolucionária — rejeitou a alegação do presidente Donald Trump de que os Estados Unidos estariam negociando um fim imediato ao conflito. A declaração vinha atrelada a relatórios de que Washington teria enviado a Teerã um plano de 15 pontos para discussão. A combinação de ação militar contínua e sinais diplomáticos contraditórios amplia a sensação de improviso nas capitais, com reflexos imediatos nos mercados.
O porta-voz do comando militar conjunto do Irã questionou a legitimidade da narrativa norte-americana e afirmou que o país não faria acordos com Washington depois de experiências que, segundo Teerã, demonstraram má-fé em negociações passadas. Paralelamente, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano reforçou que as Forças Armadas estão focadas na defesa e que não existe diálogo formal de negociação com os EUA enquanto persistir a percepção de ataques durante conversações anteriores. Esse histórico mina a confiança necessária para um cessar-fogo sustentado.
Vocês estão negociando entre si e não conosco, questionou o comando iraniano sobre as declarações americanas.
No plano militar, as mensagens foram igualmente beligerantes. As Forças de Defesa de Israel afirmaram ter lançado uma série de ataques contra infraestrutura em Teerã e, posteriormente, atingido instalações descritas como locais de produção de mísseis de cruzeiro navais. Do lado iraniano, a mídia estatal e semioficial relatou que ataques atingiram áreas residenciais e que equipes de resgate atuavam nos escombros. O teatro de operações se expandiu: autoridades do Kuwait e da Arábia Saudita reportaram ter repelido ataques de drones, e um tanque de combustível no aeroporto do Kuwait pegou fogo sem vítimas, segundo a autoridade local de aviação.
Os relatos sobre um plano de 15 pontos — noticiados pelo New York Times e por meios israelenses — alimentaram uma oscilação imediata nos mercados: ações subiram e preços do petróleo recuaram diante da expectativa de um cessar-fogo temporário e possível retomada das exportações do Golfo. Fontes citadas nas reportagens indicaram que Washington buscaria um cessar-fogo inicial de um mês para discutir termos, mas confirmaram que os detalhes do conteúdo e das garantias propostas permanecem obscuros. Essa falta de transparência reduz a probabilidade de que mensagens públicas gerem calma duradoura nos preços e nas cadeias de fornecimento.
A cisão entre a aparente abertura diplomática dos Estados Unidos e a postura intransigente do comando militar iraniano revela uma tensão institucional dentro de Teerã e expõe um problema clássico de credibilidade: mesmo que exista um plano sobre a mesa, seu sucesso depende de quem de fato tem poder de decisão. A Guarda Revolucionária — dominante nas estruturas militares — historicamente assume papel central em crises de segurança, o que complica qualquer acordo negociado exclusivamente pela via política ou por interlocutores sem respaldo militar robusto.
As Forças Armadas afirmaram que nenhum acordo será feito com Washington enquanto persistir a desconfiança; não agora, não no futuro.
Politicamente, o episódio traz riscos para Washington e para aliados regionais. Para a administração americana e para o presidente que anunciou negociações, apresentar avanços não verificados como certos pode gerar desgaste doméstico caso as conversas fracassem ou provem-se meramente táticas para acalmar mercados. Para os países do Golfo, ataques a infraestrutura e tentativas de atingir bases e portos elevam custos de seguro e de navegação, pressionando exportadores e acelerando decisões empresariais sobre rotas e estoques, com impacto potencial sobre inflação e cadeias globais.
O quadro prático é que, após quatro semanas de conflito que já provocaram milhares de mortos e o maior choque energético em décadas, a probabilidade de uma trégua duradoura sem garantias verificáveis continua baixa. Negociações têm de superar desconfianças profundas, articular garantias militares e civis e incluir mecanismos de verificação robustos — aspectos ausentes nas comunicações públicas até aqui. Investidores e autoridades devem tratar com ceticismo sinais prematuros de acordo: a estabilidade real dependerá de oferendas concretas e de interlocutores com autoridade para cumpri-las.