Uma avaliação de um oficial da reserva da Marinha brasileira traça um quadro duro para a estratégia militar de Israel: os ataques aéreos massivos no Líbano, que em um dia deixaram ao menos 303 mortos, não parecem ter conseguido desmontar a estrutura operacional do Hezbollah. Segundo o especialista, o grupo xiita dispersa e camufla seus equipamentos e posições — o que reduz a eficácia dos bombardeios e aumenta a probabilidade de danos à população civil, em vez de desarticular centros de comando e logística.

A hipótese de ocupação do sul do Líbano até o rio Litani, hoje ventilada por Tel-Aviv como forma de criar uma zona tampão, encontra obstáculos práticos e políticos. Em termos militares, chegar ao Litani pode ser factível em operações abertas; mantê-lo, diz o analista, é outra história. As forças israelenses sofreriam pressão constante, com aumento de baixas e custo logístico elevado. No plano interno, a continuidade de operações que não produzam resultados claros tende a acarretar desgaste político para o governo de Benjamin Netanyahu, sobretudo se as perdas humanas e econômicas se acumularem.

Não creio que Israel consiga erradicar o Hezbollah; é uma capacidade dispersa e protegida, e por isso a destruição total não é uma meta plausível só com bombardeios.

No campo internacional, o episódio revela o limite do uso da força para resolver rivalidades regionais. O recente acordo de cessar-fogo de duas semanas anunciado entre Estados Unidos e Irã foi violado ao ser intensificado o ataque de Israel ao Líbano, e Teerã ameaçou abandonar as negociações com Washington. Para o especialista, a entrada da Otan ou uma intervenção direta norte-americana dificilmente mudariam a equação: as capacidades de defesa do Irã e de seus aliados no teatro do Golfo e do Levante tornam improvável a reabertura de corredores estratégicos — como o Estreito de Ormuz — por meios puramente militares sem risco de escalada drástica.

A conclusão do oficial consultado é política e estratégica: diante da dificuldade em neutralizar o Hezbollah pelo caminho das armas, resta a diplomacia como solução menos danosa. Essa alternativa, porém, exige esforço internacional coordenado e custos políticos imediatos para os atores que buscam resultados mais rápidos via força. Para Netanyahu e para Washington, apostar exclusivamente em campanhas militares traz risco de prolongar um conflito que pressiona aliados, eleva o preço econômico da região e amplia a incerteza sobre uma saída negociada. O diagnóstico é claro: sem mudança de estratégia, o conflito tende a se arrastar com consequências regionais e repercussões políticas domésticas.