O posicionamento público do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 10ª Cúpula da Celac, em Bogotá, coloca os minerais críticos e as terras raras no centro de uma estratégia que pretende ir além do discurso: transformar recursos naturais em alavanca de desenvolvimento interno. Lido pelo chanceler Mauro Vieira, o discurso sublinha uma ambição clara — impedir que matérias-primas locais continuem a enriquecer cadeias produtivas estrangeiras enquanto a maioria da população regional segue à margem dos ganhos econômicos. Trata‑se de um apelo por autonomia produtiva, mas também por mais coordenação diplomática e comercial entre países com interesses muitas vezes concorrentes.
A proposta de que a região participe de todas as etapas das cadeias de valor — da extração ao produto final, passando por beneficiamento e reciclagem — não é novidade nas letras, mas ganha sentido político na medida em que se articula como instrumento de barganha. Um marco regional, como sugerido por Lula, poderia padronizar regras, reduzir assimetrias regulatórias e fortalecer poder de negociação frente a investidores e potências que hoje internalizam grande parte do valor agregado. Para que isso ocorra, porém, será necessário combinar investimento privado, políticas públicas consistentes e segurança jurídica, tópicos que historicamente travam projetos ambiciosos de industrialização na América Latina.
Podemos reescrever nossa história e deixar de enriquecer terceiros com nossas riquezas.
A repetida referência à posição geológica privilegiada da região — apontada no evento como a segunda maior reserva mundial de minerais estratégicos — serve de alerta e de oportunidade. O alerta está na exposição geopolítica: países com reservas atraem atenção de grandes consumidores industriais e também de atores interessados em garantir acesso prioritário a insumos essenciais à era digital e à transição energética. A oportunidade, por sua vez, aparece se governos locais conseguirem transformar extração em cadeia de valor, o que passa por investimento em tecnologia, capacitação técnica e políticas fiscais que incentivem o beneficiamento local em vez da simples exportação de minério bruto.
Do ponto de vista econômico, a ideia de ampliação do comércio intrarregional e integração de cadeias produtivas tem pontos práticos e restrições. Uma maior circulação de insumos e componentes pode reduzir custos logísticos, criar mercados regionais para manufaturas e atrair investimentos em etapas de maior valor agregado. No entanto, barreiras tarifárias, infraestrutura deficiente, falta de padrões comuns e competição entre estados por investimentos continuam sendo entraves reais. A defesa de Lula por rotas terrestres, marítimas e energéticas interconectadas é, portanto, um diagnóstico válido; a execução, entretanto, exige políticas de longo prazo e consensos políticos internos e externos nem sempre fáceis de obter.
Politicamente, a ênfase na integração aparece também como resposta à fragilidade diante de pressões externas. Um bloco regional mais coeso tende a ter maior margem de manobra tanto nas relações com grandes potências quanto em negociações multilaterais sobre investimentos, tecnologia e segurança. A menção ao diálogo com China, União Europeia e África é um reconhecimento pragmático: estes atores veem valor na região e exercem influência significativa. A estratégia sugerida é usar essa atenção para atrair acordos que respeitem maior agregação de valor local, mas isso requer capacidade de negociação, coerência interna e, acima de tudo, instituições capazes de sustentar compromissos comerciais e industriais.
Esta região não pertence ao quintal de nenhum outro país.
Há, ainda, uma dimensão de segurança pública e financeira que atravessa a proposta. Lula destacou que desarticulação regional favorece o crime organizado e torna mais difícil combater o fluxo de armas, lavagem de dinheiro e outros mecanismos que corroem governança. Integrar redes elétricas, rotas comerciais e sistemas de fiscalização pode reduzir vulnerabilidades, mas também demanda cooperação real em inteligência, combate à impunidade e transparência nas finanças públicas. Sem esses elementos, ganhos econômicos potencialmente gerados por integração e industrialização podem esbarrar em custos sociais e em incentivos perversos que perpetuam desigualdades.
No balanço final, a defesa presidencial por um marco regional e por participação plena nas cadeias de valor dos minerais críticos é coerente com uma estratégia de soberania econômica. Contudo, transformar esse discurso em resultado prático exige enfrentar escolhas difíceis: priorizar investimentos em educação e tecnologia, revisar legislações ambiental e fiscal, e negociar concessões entre países e setores. A proposta abre uma janela de oportunidade para romper ciclos de dependência tecnológica e promover desenvolvimento com mais agregado local, mas o caminho exige liderança política sustentada, pragmatismo econômico e uma agenda clara para atrair capital que proponha transferência de tecnologia e não apenas extração de renda natural.