No encerramento de um fórum de líderes de esquerda em Barcelona, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta sábado a necessidade de regras internacionais para as plataformas digitais. Segundo ele, as redes deixaram de cumprir função social e passaram a veicular, em larga escala, conteúdo nocivo — da desinformação à exploração sexual e jogos que, na visão do presidente, exigem intervenção estatal coordenada além das fronteiras.

Ao lado do premiê espanhol Pedro Sánchez, anfitrião do encontro que reuniu cerca de 20 chefes de Estado e ex-líderes, entre eles Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum, Lula vinculou a proposta de regulação a uma preocupação com soberania digital. Em ano eleitoral no Brasil, argumentou, há risco de intromissão externa e de uso de plataformas para manipular debates públicos, o que torna urgente a construção de normas comuns.

A fala, além de abrir espaço para um debate diplomático sobre governança da internet, acende alerta sobre possíveis consequências internas: pressionaria provedores e criaria terreno para disputas sobre liberdade de expressão, limites à moderação e poderes regulatórios do Estado. Para a oposição, a iniciativa pode ser apresentada como tentativa de controle de conteúdo em um ano sensível politicamente, o que complica a narrativa oficial.

No mesmo fórum, Lula criticou o funcionamento do Conselho de Segurança da ONU, responsabilizando os membros permanentes por decisões unilaterais que, segundo ele, contribuíram para conflitos recentes. Citou exemplos históricos de intervenções externas como sintomas de uma instituição que, na sua avaliação, não cumpre plenamente o papel de manter a paz e precisa de reformas que ampliem a representação.

O recado do presidente combina objetivo diplomático — buscar coordenação internacional sobre tecnologia e informações — com efeito político doméstico: coloca o tema da regulação digital no centro do debate público e força interlocutores, nacionais e estrangeiros, a explicitar posições sobre limites da liberdade e mecanismos de controle. A proposta, se adotada, exigirá negociações complexas e pode transformar a agenda tecnológica em ponto de disputa das eleições vindouras.