O governo de Luiz Inácio Lula da Silva anunciou para os próximos dias a edição de uma medida provisória que tende a proibir as plataformas de apostas online — as chamadas bets — além de encaminhar projeto de lei com previsão de criminalização de atividades no setor. A iniciativa será apresentada oficialmente em São Paulo, a poucos dias do primeiro turno, e chega ao debate público num momento em que a corrida presidencial aparece apertada em levantamentos agregados.
Pesquisas recentes apontam que a proposta tem amplo apelo popular: levantamento da Atlas Intel indica que três em cada quatro entrevistados são favoráveis à proibição. Ao mesmo tempo, sondagem da More in Common (feita pelo Ipsos-Ipec) mostrou que 58% dos entrevistados afirmam não ser influenciados pela posição de um candidato sobre o tema, enquanto 24% dizem que teriam mais vontade de votar num candidato que defende restrições. Para analistas como Pablo Ortellado, professor da USP e diretor da More in Common, o anúncio revela uma tentativa pragmática de recompor apoio no curto prazo — uma manobra que, por sua própria natureza, sinaliza preocupação com o desempenho eleitoral.
A iniciativa combina, portanto, apelo popular e risco político. Em cenário de empate técnico em eventual segundo turno com o senador Flávio Bolsonaro, qualquer variação de poucos pontos percentuais pode ser decisiva — e é nesse espaço que o governo busca atuar. Mas a medida também enfrenta resistência institucional e econômica: federações estaduais e grandes clubes publicaram manifesto alertando que patrocínios e investimentos das casas de apostas tornaram-se importante fonte de receita, inclusive para categorias de base e competições de menor exposição, e classificaram a proibição como potencialmente letal para a saúde financeira de várias agremiações.
Do ponto de vista institucional, a rápida edição de norma às vésperas da votação expõe o Executivo a críticas sobre uso de instrumentos presidenciais para fins eleitorais e pode abrir espaço para disputas judiciais e pressões no Congresso. A proibição, embora popular, não aparece como solução definitiva para quem esteja atrás nas sondagens: mais provável é que ela movimente a campanha, gere debates sobre regulação e financiamento do esporte e force aliados e adversários a recalibrar posicionamentos num momento em que cada ponto conta.