O atrito diplomático provocado pela prisão e posterior soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem em Orlando deixou mais claro um fato apontado por especialistas: o bolsonarismo mantém canais de acesso à Casa Branca mesmo após a aproximação pública entre Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Guilherme Casarões, professor da Florida International University, a retirada de um oficial brasileiro pelos EUA foi uma reação pontual que evidencia influência doméstica — de atores como Eduardo Bolsonaro e jornalistas com trânsito na política americana —, mas não configura, por si só, uma ruptura diplomática de grande escala.
Casarões ainda pondera que o governo Trump pode não buscar um aliado submisso no Brasil; em alguns cenários, um interlocutor com capacidade de diálogo regional, como Lula, pode ser tão estratégico quanto um governante alinhado incondicionalmente. No entanto, o pesquisador ressalta que a prioridade americana em conflitos com o Irã e na gestão do preço dos combustíveis limita o foco dos EUA sobre o Brasil. Mesmo assim, decisões pontuais de Washington sobre segurança — como a eventual classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas — podem ter peso direto sobre a imagem do governo brasileiro e sobre o debate eleitoral.
No plano interno, essa disputa externa cria terreno para a oposição explorar narrativas de fragilidade ou conivência do Executivo na área de segurança pública. A tentativa do Itamaraty de costurar cooperações técnicas com os EUA para evitar classificações que toquem a soberania é uma estratégia de redução de risco, mas também abre espaço para que adversários transformem temas de segurança em munição eleitoral. Casarões observa que, mesmo sem apoio direto de Trump a candidatos como Flávio Bolsonaro, a influência e o envolvimento de atores bolsonaristas em Washington tendem a se refletir por 'vias tortas' no eleitorado, sobretudo entre eleitores de centro ainda indecisos.
Do ponto de vista político, o episódio amplia desgaste potencial para a campanha governista: obriga Lula a calibrar uma defesa firme da soberania nacional sem, ao mesmo tempo, prejudicar uma relação bilateral que julga importante. A leitura do especialista indica um cenário de risco calculado — não uma crise imediata — que pode complicar a narrativa oficial nas próximas semanas e obrigar mudanças de estratégia em Brasília, com impacto direto na batalha pelo voto em outubro.