O governo de Javier Milei publicou o Decreto 1.203 que institui um plano de demissão voluntária no serviço público federal argentino, com potencial de adesão de até 21 mil servidores. A medida integra a agenda de ajuste fiscal do presidente, que desde 2023 já eliminou cerca de 77,5 mil postos no setor público, segundo dados oficiais apresentados pela própria administração.

A norma contempla três grupos de trabalhadores — com exceção de militares e pessoal ligado a segurança e inteligência — e focaliza funcionários próximos à aposentadoria (entre 58 e 64 anos) ou que já preencham requisitos para se aposentar. Entre as compensações previstas estão indenização equivalente a um salário por ano de serviço e pagamento mensal de 60% da remuneração por três anos. O governo também condiciona a volta ao serviço público: quem aderir ficará impedido de reassumir cargo estatal por oito anos, e as vagas serão suprimidas de forma permanente.

Do lado oficial, o Executivo justifica o pacote como medida de contenção de despesas e projeta uma economia de aproximadamente US$ 3,2 bilhões. A imagem retórica da 'motosserra' — símbolo da gestão para cortes — volta a marcar a ação. Na outra ponta, a Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE) acusa o governo de pressionar empregados a aderir, descreve ameaças de afastamento forçado e alerta que a política replicaria experiências passadas que deixaram servidores sem proteção e serviços públicos enfraquecidos.

O plano também chega num momento de fragilidade econômica: a taxa de desemprego subiu para 7,9% no primeiro semestre de 2026, e o governo registra fechamento de empresas e perda de postos formais de trabalho desde 2023. Politicamente, a iniciativa reforça o choque de prioridades entre a aposta em austeridade e a pressão por manutenção de capacidade operacional do Estado. A disputa com sindicatos e a reação da sociedade civil vão medir até que ponto a agenda de redução do aparelho público consegue avançar sem elevar custo social e político ao governo.