Mesmo em meio à escalada de violência no sul do Líbano, os dois brasileiros no quartel‑general da Força Interina das Nações Unidas (Unifil) em Naqoura insistem num ritual simples: almoçar juntos. Para o capitão‑tenente Hamilton de Andrade dos Santos, de 34 anos e um dos 10 militares brasileiros na missão, o gesto é uma âncora numa rotina de pressão e risco. "É um momento simples, mas que acaba tendo valor justamente porque permite manter contato e proximidade em uma rotina de trabalho bastante intensa", escreveu Santos em e‑mail à reportagem.

A presença da Unifil no sul do país ficou ainda mais sob tensão após a morte, em 29 e 30 de março, de três integrantes indonésios da missão em incidentes próximos à Linha Azul, a faixa que separa posições do Hezbollah e de forças israelenses. Em comunicado, a missão lembrou que "ninguém deveria morrer servindo à causa da paz". Segundo informações repassadas pela assessoria da Unifil, um dos incidentes foi causado por um projétil disparado pelas Forças de Defesa de Israel; outro teria resultado da detonação de um dispositivo explosivo improvisado, possivelmente colocado por milícias locais. No mesmo período, o ministério da Saúde do Líbano registrou centenas de mortos e feridos em ataques aéreos que intensificaram a crise humanitária.

Ninguém deveria morrer servindo à causa da paz.

O efeito das perdas é imediato sobre a rotina dos capacetes‑azuis: além do abalo humano, há impacto operacional e aumento do cuidado nas operações diárias. Santos diz que a equipe tenta preservar disciplina mental e foco na missão como forma de enfrentar a amargura. "O apoio mútuo, a confiança profissional e até a capacidade de preservar alguma leveza, quando o contexto permite, ajudam a enfrentar a tensão", afirmou. A sensação de vulnerabilidade, porém, é real — a morte de colegas lembra que a neutralidade da missão não a torna imune a explosões e fogo cruzado.

Para o Brasil e para a própria ONU, os incidentes reabrem questões práticas e políticas sobre a segurança de tropas em zonas onde atores estatais e não estatais operam com intensidade. A presença de dez militares brasileiros em um teatro de combates suscita cálculo sobre riscos, regras de engajamento e medidas de proteção. Do ponto de vista institucional, há um custo reputacional e humano quando forças de paz são atingidas: além do luto, cresce a pressão por respostas que garantam a segurança dos contingentes e preservem a credibilidade da missão diante de uma guerra que já provoca milhares de vítimas no Líbano.