Na Iugoslávia das décadas de 1970 e 1980, um anti‑herói italiano trouxe às bancas imagens recorrentes de uma Amazônia dramática e colorida. Criado por Sergio Bonelli (1932-2011), sob o pseudônimo Guido Nolitta, Mister No virou leitura obrigatória para muitos jovens do país socialista, em edições traduzidas para o servo‑croata e competindo nas prateleiras com títulos como Tex e Dylan Dog.
A série publicou sistematicamente aventuras ambientadas entre os anos 1950 e 1960, ainda que a circulação original tenha se estendido de 1975 a 2006. O protagonista, Jerome Drake Jr. — apelidado Mister No — é um ex‑piloto nova-iorquino que, abatido por sequelas da Segunda Guerra, coloca os pés no Brasil e se estabelece em Manaus como piloto e guia. O folclore da revista combina voos arriscados em Pipers, viagens por igarapés em pirogas motorizadas e encontros com figuras moralmente ambíguas.
Mister No marcou minhas férias de infância; os gibis preenchiam semanas de descanso e ajudam a evocar aquele tempo.
O personagem carrega traços que soam anacrônicos e políticos: a alcunha vem de episódios de resistência durante a guerra, e entre seus companheiros aparece Otto Kruger, um ex‑oficial nazista exilado e apelidado 'Esse‑Esse'. Esses elementos, somados à fantasia da floresta inexplorada, criaram narrativas que fascinaram leitores estrangeiros e ajudaram a fixar uma imagem exótica, imediata e pouco reflexiva do Brasil.
Reportagens e entrevistas com leitores iugoslavos adultos hoje recordam Mister No como sinônimo de férias e de escapismo: gibis comprados nas viagens, capas exuberantes e uma Amazônia apresentada como aventura contínua. O personagem chegou a ser publicado também nos Estados Unidos, na Índia e em diversos países europeus, mas, paradoxalmente, jamais alcançou grande adesão junto ao público brasileiro — um indicador de como representações externas nem sempre dialogam com a própria realidade nacional.
O fenômeno é uma lembrança útil para quem acompanha circulação cultural: quadrinhos podem ser vetores poderosos de imagem internacional, mas também simplificam e naturalizam estereótipos. Mister No mostra como uma visão estrangeira da Amazônia se consolidou na imaginação de uma geração inteira, sem, contudo, se traduzir em correspondência com as sensibilidades ou o mercado do Brasil.
As imagens da floresta nas revistas contribuíram para uma visão exótica e quase comestível do Brasil entre os leitores iugoslavos.