Dados de plataformas de rastreamento consultadas por agências mostram que a maioria das embarcações que transitaram pelo Estreito de Ormuz no último dia tinha ligação com o Irã, enquanto outros navios adiaram viagens. Análises da Kpler e da Lloyd's List Intelligence indicam que três navios-tanque — incluindo um superpetroleiro com capacidade estimada em 2 milhões de barris, um navio-tanque de abastecimento e uma embarcação petroleira menor — deixaram águas iranianas nas últimas 24 horas. Quatro graneleiros também passaram, entre eles um cargueiro com minério de ferro rumo à China.

O acordo de cessar-fogo entre Teerã e Washington interrompeu a campanha aérea, mas até agora não desmontou o bloqueio que pressionou o fluxo de energia global. Trocas de tiros entre Israel e o Hezbollah no Líbano foram descritas por Teerã e por Washington como possíveis violações da trégua, e o próprio presidente dos EUA criticou publicamente a gestão iraniana sobre a passagem de petróleo, afirmando que ‘‘esse não é o acordo que temos’’ e prometendo que o petróleo voltaria a fluir, sem detalhar como.

A mediação paquistanesa levou as delegações a Islamabad para negociações que começam cercadas por medidas de segurança incomuns: a capital foi parcialmente bloqueada e um perímetro de três quilômetros foi estabelecido ao redor do hotel que receberá as comitivas. A delegação iraniana será liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf; a equipe dos EUA é chefiada pelo vice-presidente J.D. Vance. Apesar das acusações mútuas de violação, fontes afirmam que as conversas devem prosseguir, embora em ambiente tenso.

A leitura política é direta: a trégua demonstrou capacidade de frear ataques aéreos, mas não apresentou mecanismos eficazes para garantir a liberdade de navegação nem para conter frentes regionais simultâneas, como o conflito no Líbano. A manutenção do bloqueio expõe o limite do acordo e dá ao Irã uma alavanca real sobre mercados e rotas comerciais, ao mesmo tempo em que força os EUA e aliados a decidirem entre acomodação diplomática e ações para restaurar o tráfego marítimo.

No curto prazo, a ausência de medidas concretas para abrir o Estreito mantém os riscos para o fornecimento energético e para a estabilidade regional. As conversações em Islamabad podem ser um primeiro passo, mas sem garantias operacionais — escoltas, garantias de segurança ou acordos específicos sobre rotas — o impacto econômico e político continuará a pressionar governos e mercados, ampliando a necessidade de respostas práticas além de declarações diplomáticas.