Na primeira Páscoa desde que assumiu o pontificado, o Papa Leão XIV usou a tradicional bênção na Praça de São Pedro para lançar um apelo direto contra os conflitos armados e contra o que chamou de crescente 'indiferença' diante da violência. A fala, proferida diante de milhares de fiéis, foi deliberadamente genérica: o pontífice não citou países ou regiões específicas.

Ao afirmar que a humanidade tem se acostumado à violência, Leão XIV destacou também os custos sociais e econômicos das guerras e pediu ação às autoridades com poder de decisão. Nas últimas semanas o pontífice adotou um tom similar: chegou a dizer que Deus não ouve orações de governantes que promovem guerras, declaração interpretada pela imprensa como um recado em meio às tensões no Oriente Médio.

Estamos nos resignando e nos tornando indiferentes à morte de milhares de pessoas.

A missa de Páscoa no Vaticano trouxe cânticos e referências à ressurreição, com a Praça de São Pedro decorada por cerca de 60 mil flores. O evento encerrou os ritos da Semana Santa, período em que o pontífice protagonizou gestos pouco comuns na liturgia recente: carregou a cruz durante a procissão da Via Crucis — algo que não ocorria desde a década de 1970 — e rezou deitado no chão durante a celebração da Paixão de Cristo.

O enquadramento amplo da crítica tem efeito político: ao não apontar atores específicos, o Vaticano universaliza a condenação e, ao mesmo tempo, acende alerta para governos que buscam manter relações diplomáticas com Roma. A estratégia moral do pontífice tende a ampliar a pressão pública sobre lideranças que autorizam ou alimentam conflitos, sem, contudo, transformar o discurso em acusação direta — o que pode preservar espaço para mediação, mas também complicar posturas de neutralidade.

A Páscoa, data central do calendário cristão, conferiu peso simbólico ao recado. Ao combinar gestos litúrgicos visíveis com palavras duras contra a acomodação à violência, Leão XIV sinaliza que seu pontificado usará a liturgia e a voz pública para disputar narrativas sobre paz, responsabilidade dos poderes e o custo humano das guerras.

Que aqueles que têm o poder de desencadear guerras escolham a paz.