A entrada do Paquistão como mediador nas tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã surpreendeu observadores, mas tem premissas claras: proximidade cultural com Teerã, relação funcional com Washington e exposição econômica a choques no Oriente Médio. A boa relação pessoal entre o presidente Donald Trump e o chefe das Forças Armadas paquistanesas, marechal Asim Munir, abriu canais informais que Islamabad soube aproveitar.
Ao contrário de muitos atores do Golfo, o Paquistão não hospeda bases aéreas americanas e preserva laços religiosos e comerciais com o Irã, com quem divide uma fronteira de cerca de 900 km. Essa combinação dá a Islamabad credibilidade para transmitir mensagens sem ser visto como cliente direto de uma das partes, ao mesmo tempo em que o país tem interesse direto na desescalada: grande parcela do seu petróleo vem pelo Estreito de Ormuz.
Munir é meu marechal favorito, disse Trump.
Há, porém, contradições difíceis de ignorar. O Paquistão acumula tensões com vizinhos — Índia e Afeganistão — e assinou um pacto de defesa com a Arábia Saudita que pode obrigá‑lo a escolhas perigosas caso Riad entre no conflito. Internamente, protestos pró‑Irã já deixaram mortos e mostram que a opinião pública favorece posições próximas a Teerã, um fator que limita a margem de manobra do governo.
Os sinais práticos da diplomacia de Islamabad incluem o envio de mensagens entre os envolvidos, o recebimento de chanceleres de países muçulmanos e o aumento de contactos de alto nível. Paralelamente, as autoridades adotaram medidas domésticas que revelam o dólar do problema: aumento de combustíveis e cortes no funcionamento do Estado para economizar energia, demonstração de que uma escalada teria custo imediato e concreto na economia paquistanesa.
O papel do Paquistão, portanto, é ambivalente: ele oferece um canal útil para redução de tensões, mas faz isso a partir de uma posição vulnerável. Essa mediação expõe Islamabad a pressões externas e internas e obriga o governo a equilibrar interesses estratégicos, riscos militares e custo político doméstico. Para Washington e Teerã, o gesto paquistanês é oportuno — mas frágil: sua eficácia dependerá da capacidade de Munir e de diplomatas paquistaneses de transformar interlocução em faixas seguras de negociação, sem abrir novas frentes de conflito.
O Paquistão, eu diria, mais do que quase qualquer outro país fora do Oriente Médio, tem muito em jogo aqui, disse Michael Kugelman.