O Paquistão celebra um resultado inesperado: o acordo para um cessar‑fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, negociado em solo paquistanês, e a chegada de delegações que começam conversações formais em Islamabad. O governo decretou dois dias de feriado na capital antes do início das negociações e recebeu figuras como o vice‑presidente americano JD Vance e representantes iranianos, incluindo o presidente do Parlamento Mohammad Bagher Ghalibaf e o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi. O episódio reforça a imagem de Islamabad como interlocutor aceito por lados adversos, ao mesmo tempo em que transforma a cidade num palco de alta sensibilidade geopolítica.

No centro desse movimento está o chefe militar Asim Munir, a figura que concentra poder político e militar no país. Munir vem construindo relações com Washington e com atores regionais, numa combinação de inteligência e influência que, segundo diplomatas e analistas, foi determinante para obter concessões práticas — inclusive cooperação com a CIA em operações passadas, segundo relatos públicos. Essa proximidade rendeu ao Paquistão um ganho de prestígio internacional e um raro papel de mediador entre potências em confronto direto.

Mas o sucesso traz custos e riscos palpáveis. Especialistas como Abdul Basit apontam que, se as negociações colapsarem, o Paquistão pode ser arrastado para um cenário perigoso: o país assinou no ano passado um pacto de defesa com a Arábia Saudita e já enfrenta tensões em várias fronteiras, além de insurgências internas em províncias críticas. A abertura do estreito de Ormuz — por onde transitava cerca de 20% do petróleo global antes do conflito — é um interesse estratégico que pressiona todos os envolvidos a buscar um acordo, mas também amplia o potencial de retaliações locais contra Islamabad caso o papel de mediador seja percebido como parcial.

A manobra diplomática dá ao Paquistão uma vitória política de curto prazo e um reforço de autoridade para as Forças Armadas, além de acalentar orgulho nas redes sociais domésticas. Ao mesmo tempo, expõe a fragilidade de um país que saiu recentemente de crise econômica e depende de estabilidade externa para atrair investimentos e apoio financeiro. A capacidade de Munir e do governo civil de converter esse capital diplomático em segurança duradoura e alívio econômico será o teste imediato: sem garantias sólidas, o intermédio pode virar encargo, ampliando custos políticos e estratégicos para Islamabad.