A história do biólogo Breno Almeida — que aos 10 anos abriu uma caixa com um filhote de cascavel e, contra o preconceito, decidiu dedicar a vida às serpentes — ilustra um problema essencial da conservação: a percepção pública molda prioridades e recursos. Espaços como o Centro Amazônico de Herpetologia, que resgata e mantém répteis e anfíbios, investem em educação para desconstruir o medo e o ódio, mas operam num campo financeiro desigual.
A desigualdade aparece com números concretos. Um estudo publicado em 2025 na PNAS analisou a distribuição global de financiamento à conservação e concluiu que o critério dominante não é o grau de ameaça, mas o carisma e o tamanho das espécies. De US$ 1,9 bilhão destinados a ações conservacionistas, US$ 1,6 bilhão — 84% — foi alocado a vertebrados; os invertebrados ficaram com apenas 6,6%. Entre vertebrados, de 70% a 85% dos recursos concentram-se em aves e mamíferos; répteis receberam apenas 5,8% desse montante.
Quero que as pessoas parem de matar cobras e aprendam a cuidar delas.
O viés não se restringe ao caixa. Um levantamento publicado na Nature em 2017 sobre ocorrências no GBIF mostrou que mais da metade dos registros é de aves, embora elas representem cerca de 1% das espécies catalogadas. Grupos ricos em espécies, como aracnídeos, aparecem com pouquíssimos registros relativos; répteis e anfíbios também ficam atrás em cobertura de dados. A falta de conhecimento dificulta diagnósticos, priorização e ação efetiva para evitar extinções.
Consequências práticas se manifestam em vários níveis. Estudos experimentais no Brasil indicam que animais considerados repulsivos ou ameaçadores correm maior risco de atropelamento e morte por ação humana. A pouca visibilidade científica e a escassez de recursos tornam esses grupos menos protegidos na legislação, nas políticas públicas e nas iniciativas privadas — um circuito que amplia vulnerabilidade e reduz chance de recuperação.
A lição para gestores públicos e financiadores é clara: escolher espécies pela simpatia pública é uma estratégia ineficiente e arriscada. Além de financiamento direcionado à investigação de grupos subestimados, é necessário ampliar programas de educação ambiental, apoio a centros de reabilitação e políticas que alinhem recursos à real ameaça de extinção. Sem ajustar prioridades, o país e o mundo podem perder biodiversidade que sequer chegou a ser conhecida.
Muitas visitas começam com a crença de que todas as cobras são peçonhentas e isso traz repulsa.