A compra feita em março pelo fundador do Facebook — um imóvel de US$ 170 milhões em Indian Creek — virou símbolo de um fenômeno maior: Miami deixou de ser apenas destino de ricos da América Latina e passou a atrair bilionários americanos. Nomes como Jeff Bezos, Larry Page, Sergey Brin e Ivanka Trump estão entre os que mudaram endereço nos últimos anos, transformando o mercado local em vitrine de fortunas.

Especialistas do setor ouvidos pela imprensa creditam a mudança a fatores estruturais: clima, praias e conexões aéreas já faziam parte da equação, mas decisões políticas recentes ampliaram a vantagem competitiva. A Flórida não cobra imposto estadual sobre renda e — durante a pandemia — adotou medidas de reabertura mais rápidas que Estados como Nova York e Califórnia. Para corretores consultados, essa combinação acelerou a migração de pessoas de alta renda.

O efeito nas ruas e nas cifras é palpável: surgiram vendas recorrentes acima de US$ 60 milhões e, segundo agentes de alto padrão, 2025 registrou mais de US$ 517 milhões em transações desse segmento. Há ainda listagens que batem recordes: uma casa em Key Biscayne avaliada em US$ 237 milhões chega a ser comparada a cenários cinematográficos — a própria residência aparece em Scarface — e reforça a narrativa de que, em determinados nichos, Miami chegou a superar Nova York em preço.

A presença massiva de fortunas concentra riqueza, valoriza terrenos e pression a oferta para moradores locais. Além do impacto na acessibilidade habitacional, o fenômeno coloca desafios administrativos e políticos para autoridades municipais e estaduais: como compatibilizar benefícios fiscais que atraem investimentos com demandas por infraestrutura, serviços e políticas de moradia? O quadro oferece lucro imediato para o mercado de luxo, mas também provoca debate sobre desigualdade, governança urbana e limites de um modelo de crescimento dependente de capitais extraterritoriais.