A vitória do Brasil por 4 a 2 sobre a Austrália, na terça-feira (29/9), teve um significado além do placar: o gol de Raphinha reabriu, em campo, uma história familiar incomum no futebol brasileiro. O atacante voltou a ser peça acionada no processo de renovação do técnico Carlo Ancelotti, pós-eliminação na Copa do Mundo em julho, e sua presença na equipe tem sido interpretada como reforço de um setor que busca equilíbrio entre juventude e experiência.

A singularidade da trajetória de Raphinha ganha contorno quando se observa a origem: a família do jogador é do bairro porto-alegrense da Restinga e integrou, pelo lado materno, Everaldo Marques da Silva (1944-1974), lateral-esquerdo do tricampeonato mundial de 1970. É essa coincidência — dois membros de uma mesma família com a camisa canarinho em Copas — que coloca o clã entre apenas duas famílias brasileiras com esse registro, ao lado dos Vieira de Oliveira, de Messejana, que reuniram Sócrates e Raí.

O cotidiano da família confirma distância entre a memória esportiva e a vida comum: primos que cresceram juntos no pátio da avó Wilma, hoje com 78 anos, seguem rotinas de trabalho longe dos holofotes — um com barbearia, outro como gerente de estoque — e veem em Raphinha uma trajetória de mobilidade social. A ligação entre gerações também explica a presença de Everaldo no repertório de orgulho local, lembrado inclusive pelo Grêmio com a estrela que homenageia o título de 1970.

A história de Raphinha é, portanto, dupla: a do jogador que consolidou carreira no exterior, vestindo a 11 do Barcelona, e a da origem que manteve laços e referências. Se a convocação e o gol em campo renovam expectativas sobre seu espaço na próxima temporada da Seleção, o episódio também resgata a força simbólica de bairros como a Restinga na formação de talentos — e lembra que, no futebol, os elos familiares às vezes projetam legados que ultrapassam gerações.