Há 120 anos, em um templo abandonado da Igreja Metodista Africana na Rua Azusa, em Los Angeles, uma série de cultos reorganizou o mapa do cristianismo protestante. O episódio, conhecido como Reavivamento da Rua Azusa, reuniu pouco mais de 50 pessoas segundo a imprensa da época e acabou se tornando o estopim de um movimento que se espalharia pelo século XX.
À frente do grupo estava William Joseph Seymour (1870-1922), religioso afro-americano nascido em Centerville, Louisiana, filho de ex-escravizados. Em meio à segregação racial e a condições sociais adversas, aqueles cultos atraíram majoritariamente imigrantes pobres e negros, oferecendo um espaço de participação diversa — inclusive para mulheres e analfabetos — e rejeitando hierarquias rígidas de culto.
No núcleo do fenômeno estava a ênfase na glossolalia, o chamado “dom de línguas”, entendido pelos adeptos como sinal do batismo no Espírito Santo. Seymour, que estudou em escolas bíblicas vinculadas a Charles Fox Parham e ouviu aulas até pelo corredor por ser negro, tornou-se entusiasta dessa interpretação, ainda que relatos digam que ele próprio não tenha vivenciado o fenômeno.
Pesquisadores e líderes religiosos consultados tratam Azusa como ponto de inflexão: não foi o único avivamento da época, mas foi o que explodiu e ganhou centralidade ao promover uma experiência religiosa intensa, informal e móvel. O modelo de culto descentralizado e carismático influenciou denominações, movimentos pentecostais e práticas evangélicas mundo afora.
No Brasil e em outras regiões, o legado se traduziu em crescimento expressivo das correntes pentecostais dentro do protestantismo, mudança na paisagem religiosa e impacto social relevante. Como fenômeno religioso e cultural, o Reavivamento da Rua Azusa expõe como práticas espirituais e contextos sociais combinam-se para produzir transformações duradouras nas instituições religiosas.