A prisão, em 13 de março, de Sebastián Marset — apontado como líder do chamado Primeiro Cartel Uruguaio — devolveu ao centro do noticiário regional a discussão sobre Santa Cruz de la Sierra como abrigo para chefes do crime. Extraditado aos Estados Unidos no mesmo dia, Marset não foi um caso isolado: operações bolivianas também detiveram estrangeiros e, meses antes, autoridades prenderam suspeitos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
O padrão é claro: lideranças e operadores do crime encontram na cidade condições favoráveis para se instalar. Especialistas e investigações identificam Santa Cruz como um hub logístico e financeiro, com infraestrutura que facilita deslocamentos, abertura de empresas e movimentação de dinheiro. Casos como o de Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, mostram a presença de elos diretos com facções brasileiras e esquemas de lavagem investigados pela Polícia Federal.
Santa Cruz se consolidou como ponto de apoio para lideranças que fogem da pressão policial em outros países.
A geografia e a economia locais ajudam a explicar o fenômeno. Santa Cruz fica em planícies com logística rodoviária e aérea superior ao altiplano; a região concentra investimentos agrícolas e serviços que podem camuflar fluxos financeiros. Embora não seja o principal polo de cultivo de coca — tarefa mais presente em áreas como Chapare e Yungas — há pontos de plantio e um ambiente regional que facilita a conexão entre produção, rotas e mercados internacionais.
Desmontar essas redes, porém, esbarra em limites operacionais e institucionais. Criminosos usam identidades falsas, rotas transnacionais e estruturas de lavagem que cruzam fronteiras. O vice-ministro boliviano afirmou que o problema é uma rede que opera em diferentes lugares, e, na prática, prisões pontuais tendem a deslocar atividades em vez de eliminá‑las sem ação coordenada entre países, inteligência financeira e controle sobre pontos logísticos.
O quadro tem implicações políticas e de segurança: pressiona governos a reforçar cooperação bilateral e acelera pedidos por maior vigilância sobre fronteiras, cadastros e canais financeiros. Para o Brasil, a presença de membros do PCC na Bolívia aumenta a urgência de respostas integradas. A experiência recente demonstra que prender líderes é necessário, mas insuficiente: sem atacar rotas, estruturas de apoio e os mecanismos de lavagem, o ciclo tende a se reproduzir em outros pontos da região.
Combater essas redes exige mais do que prisões isoladas: demanda ação coordenada sobre rotas, registros e mecanismos financeiros.