São Jorge é hoje muito mais um personagem do imaginário coletivo do que uma figura histórica verificável. Representado como um cavaleiro romano que vence um dragão, o santo aparece em sambas, na toponímia, no futebol — é considerado padroeiro do Corinthians — e nas festas populares do Rio de Janeiro. No Brasil, o sincretismo religioso incorporou Jorge também à umbanda e a outras devoções afro-brasileiras.
Os dados sobre sua vida são fragmentários e, com frequência, lendários. O Vaticano reconhece a abundância de narrações fantasiosas em torno da figura. A principal fonte citada por estudiosos é a 'Passio Georgii', um relato antigo classificado como apócrifo e referenciado por um decreto do século V. Pesquisadores apontam que, como acontece com muitos santos dos primeiros séculos, é difícil separar fato de ficção.
Segundo tradições hagiográficas, Jorge teria nascido na Capadócia por volta de 280, servido sob o imperador Diocleciano e sido martirizado em 303 após se declarar cristão — episódio que lhe conferiu aura de herói espiritual. Outra narrativa, associada ao imaginário das Cruzadas, conta o episódio do dragão e da princesa em Selém, na Líbia, que transformou-se em metáfora da fé triunfante sobre o mal.
Mesmo com a revisão do calendário litúrgico em 1969 — quando sua inclusão universal foi revista — a devoção popular se manteve robusta. A permanência de São Jorge nas ruas, nas festas e nos altares diz menos sobre comprovação histórica e mais sobre função social: ele opera como símbolo de proteção, identidade e resistência cultural, capaz de atravessar instituições e formar práticas religiosas híbridas.