O dia de São Jorge, celebrado em 23 de abril, reúne devoções que vão da catedral do Rio de Janeiro a cerimônias na Inglaterra. A figura do santo ocupa um lugar ambíguo entre história e mito: ao mesmo tempo patrono oficial e personagem de narrativas populares — presente em missas, em festas religiosas e, no Rio, em manifestações culturais como o universo do samba.
Pesquisadores apontam que Jorge provavelmente foi uma pessoa real: um militar romano cristão identificado como Georgios, nascido na Capadócia por volta de 260 d.C. e martirizado no início do século IV, em locais hoje conhecidos como Nicomédia ou Lida. O historiador Michael Carter, da English Heritage, resume o consenso: há bases históricas que sustentam a existência do soldado, embora muitos detalhes lhe tenham sido atribuídos posteriormente.
A versão lendária consolidou a imagem do cavaleiro que derrota um dragão em Silene, na costa da Líbia — um enredo reconstruído por estudiosos como Candida Moss, da Universidade de Notre Dame. Segundo essa tradição, Jorge teria salvo a filha do rei e exigido a conversão do povo antes de matar a fera. A história funciona como arquétipo: o bem que vence o mal, e acabou sendo apropriada por diferentes culturas e discursos militares e civis ao longo dos séculos.
Da Idade Média ao período moderno, São Jorge tornou-se patrono de cidades e Estados — de Aragão a Moscou, de Gênova a Portugal — e recebeu tratamento oficial na Inglaterra: após Agincourt (1415) sua festa ganhou peso simbólico, e em 1399 o dia foi elevado ao nível de festas maiores. Com a Reforma protestante, contudo, a centralidade dos santos recuou no mundo anglófono. Ainda assim, a figura permanece viva tanto nos altares quanto nas ruas, como símbolo de coragem, honra e fusão entre fé e identidade política e cultural.