André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e autor de Impasse – O Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras), atribui a virada de Luiz Inácio Lula da Silva à mudança de postura do governo e a medidas que tiveram impacto direto no bolso do eleitor, além da mobilização popular e do apoio de André Janones.
Singer destacou que um marco dessa mudança foi o comício em Porto Alegre, em 11 de setembro, quando o presidente admitiu o alto preço dos alimentos — citando café e carne — e a campanha passou a incorporar ações voltadas às demandas concretas da população.
Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática
O cientista político listou três fatores centrais para a reversão entre o primeiro e o segundo turno: alteração no caráter da campanha e do governo, um pacote com medidas para o bolso do eleitor e a mobilização nas ruas, complementada por apoios políticos que ampliaram a coalizão em favor de Lula.
Ao mesmo tempo, Singer advertiu que a vitória eleitoral não elimina o risco à democracia. "Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática", disse, relacionando parte do avanço desse campo político ao agravamento das desigualdades desde a crise financeira de 2008.
O pesquisador ressalta ainda que, embora parte do eleitorado tenha migrado para a direita radical, essa corrente tampouco tem oferecido soluções para a deterioração das condições de vida. "A sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos", afirmou.
A sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos
Singer lembrou também que Lula venceu Flávio Bolsonaro por margem duas vezes maior do que a registrada contra Jair Bolsonaro em 2022, o que, segundo ele, revela a dimensão da reversão entre os turnos — mas não anula os desafios estruturais citados pelo autor.