A proposta de tarifa zero para transporte público reapareceu como possível peça central na estratégia eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para 2026. Segundo aliados ouvidos e documentos públicos, o governo encomendou ao Ministério da Fazenda estudo para avaliar a viabilidade de um Sistema Único de Mobilidade, nos moldes do SUS, que financie a gratuidade por meio do orçamento federal. Trata‑se de uma ideia com apelo imediato entre eleitores, mas que levanta questões fiscais e de implementação.
O fenômeno já não é experimental: levantamento do pesquisador Daniel Santini indica que pelo menos 145 municípios adotaram alguma forma de tarifa zero, e ao menos nove capitais implementaram medidas parciais. A popularidade da política é alta nas pesquisas — 81% de aprovação em levantamento Genial/Quaest de dezembro — e o movimento tem forte respaldo político: 65% dos deputados declararam apoio ao conceito na sondagem da Quaest.
A tarifa zero tem apelo eleitoral evidente, sobretudo entre famílias de menor renda.
Esse apoio traduz-se em resultado eleitoral imediato. Estudos citados mostraram que prefeitos que adotaram a tarifa zero tiveram taxa de reeleição de 89% em 2024, um dado que explica por que a medida é vista como instrumento de atração de votos. Para famílias, o impacto é relevante: transporte representa 18,1% do gasto familiar, atrás apenas da habitação. Não surpreende que analistas chamem a tarifa zero de 'Bolsa Família sobre rodas', destacando seu potencial distributivo e simbólico.
O problema é a contrapartida fiscal. A extensão da gratuidade para todo o país exigiria fontes de receita claras e um desenho institucional complexo — compensações para operadores, subsídios a estados e municípios e regras de governança. Sem esses elementos, a proposta pode se transformar em promessa custosa e parcialmente ineficaz, além de pressionar a já sensível disciplina fiscal que o governo tenta sustentar.
Há ainda um cálculo político maior em jogo: Lula enfrenta hoje sinais de desgaste nas pesquisas, com queda nas intenções de voto e adversários em ascensão, como o senador Flávio Bolsonaro, que aparece em alta nas sondagens mais recentes. Inserir a tarifa zero na agenda pode oferecer resposta de curto prazo ao eleitorado mais vulnerável, mas também abre espaço para críticas sobre sustentabilidade, seleção de beneficiários e transparência no financiamento.
Implantá-la em escala nacional exigiria fontes de financiamento claras e custo fiscal significativo.
O debate que se abre exige equilíbrio: reconhecer o mérito social da medida sem subestimar o custo e os trade‑offs políticos e administrativos. Se a tarifa zero for transformada em plataforma nacional, o governo terá de detalhar fontes de recursos, mecanismos de governança e critérios de implementação para evitar que a proposta, popular nas urnas, gere desgaste por promessas incompletas ou custos fiscais imprevistos.