Abelardo de la Espriella tomou posse como presidente da Colômbia em uma cerimônia inédita fora de Bogotá, realizada em Cali. O evento, que reuniu delegações internacionais, parlamentares e a cúpula do novo Executivo, foi organizado em três momentos distintos que ajudam a entender as prioridades do mandatário: um ato público na universidade onde ocorreu a transmissão do cargo, um pronunciamento em quartel militar e uma longa sequência de manifestações religiosas.

A escolha de Cali, terceira maior cidade do país, tem significado político: afasta a solenidade do epicentro tradicional do poder e sinaliza um gesto de descentralização e aproximação com bases regionais. Também chamou atenção a ausência do antecessor, Gustavo Petro, que fez apenas uma cerimônia de despedida em Bogotá. De la Espriella deixou de convidar ex-presidentes que o criticaram, ressaltando uma opção por romper laços com parcelas do establishment político e reforçar sua narrativa de renovação.

O componente religioso dominou boa parte da cerimônia e gerou polêmica. Líderes de diferentes confissões conduziram orações e o tom confessional — culminando numa invocação pública a aliados do Estado de Israel e em declarações finais com referência explícita a Cristo — fez um senador abandonar o evento ao afirmar que o caráter laico da República estava sendo tensionado. Desde a campanha, De la Espriella vinha estreitando laços com lideranças evangélicas e prometeu ministérios a quadros próximos a essas igrejas, o que indica influência direta desses grupos na formação do governo.

Outro sinal relevante foi o discurso proferido em um batalhão militar, que enfatizou segurança e laços com as Forças Armadas. No plano externo, o novo presidente anunciou intenção de tratar Israel como parceiro prioritário e de estudar a mudança da embaixada para Jerusalém, medida com potencial para causar atrito diplomático, já que o status da cidade é tema sensível em negociações internacionais. Juntos, os três momentos da posse desenham um governo com marca conservadora, maior presença religiosa e ênfase em segurança — um arranjo que pode reforçar apoios em curto prazo, mas também gerar desgaste institucional e resistência interna e externa.