O terceiro encontro bilateral entre Donald Trump e Xi Jinping, em Washington, terminou com uma prorrogação da trégua tarifária até janeiro e com a inteligência artificial no centro das conversas. O tom foi de gestão da rivalidade: houve compromisso público para administrar a competição, mas sem acordos que transformem profundamente as posições estratégicas de cada lado.

A agenda foi densa — do desfile diplomático ao jantar de gala com executivos das big techs — e as declarações públicas deixaram claras as diferenças. Xi defendeu que a IA deve ser desenvolvida "sempre sob controle humano", enquanto Trump chamou o tema de "urgente" e ressaltou que as decisões tomadas hoje podem promover paz e prosperidade por décadas. Nas redes, porém, o presidente norte-americano reiterou resistência a medidas de controle: "Quero deixar isso exatamente como está".

Especialistas consultados pelo Correio qualificam o balanço como um "empate técnico". Gunther Rudzit (ESPM) aponta que a IA deixou de ser apenas tecnológica para virar componente central da competição estratégica; há espaço para diálogo sobre riscos, mas pouca disposição para aceitar regras que limitem a capacidade competitiva. Roberto Goulart Menezes (Irel/UnB) avalia que a China preservou a trégua e o diálogo sem ceder publicamente em mudanças estruturais e que Pequim busca liderar o setor com uma narrativa de benefício mais amplo.

Na prática, o resultado produz consequências distintas para cada lado: Washington mantém instrumentos de pressão econômica e tecnológica em jogo — importantes em negociações sobre compras agrícolas e matérias-primas estratégicas —; Pequim ganha tempo e estabilidade para comércio e investimento. Para mercados e formuladores, a mensagem é clara: há adiamento de choques diretos, não resolução da disputa. A corrida pela supremacia em IA segue, administrada por dois atores que preferem preservar margem de manobra em vez de aceitar regras que limitem sua competição.