A Unicef divulgou um relatório que projeta que até 23,4 milhões de crianças poderão ficar em situação de pobreza até o fim do ano em razão dos efeitos económicos da guerra no Médio Oriente. O estudo, feito a partir de dados de mais de 167 países, traça dois cenários: um adverso, com cerca de 18,3 milhões de menores afetados, e outro grave, em que a intensificação do conflito eleva o total para 23,4 milhões.
A deterioração decorre do aumento dos preços de alimentos e energia e do arrefecimento da atividade económica, fatores que reduzem rendimentos e capacidade das famílias de atender necessidades básicas. A Unicef analisa pobreza monetária — domicílios com rendimentos abaixo de limiares internacionais — e alerta que o impacto vai se concentrar principalmente na Ásia e na África, responsáveis por cerca de 80% do aumento estimado.
O relatório traz exemplos que ilustram a transmissão do choque global para populações vulneráveis: na Somália, os preços dos combustíveis duplicaram dias após a escalada do conflito, elevando também o custo da água e das operações humanitárias. Na Etiópia, interrupções no comércio ligadas ao Estreito de Ormuz aumentaram o preço do gás em 31% e encareceram combustíveis essenciais usados em ações de socorro em 50% a 70%.
A Unicef pede medidas urgentes: proteger o financiamento de serviços essenciais como saúde, nutrição, educação e proteção infantil; garantir acesso a bens básicos; ampliar o espaço fiscal por meio de suspensão ou reestruturação de dívidas; e reforçar sistemas de resposta. Politicamente, o alerta coloca pressão sobre governos, doadores e instituições financeiras: sem ação coordenada, há risco real de reversão de anos de avanços sociais e de agravamento das desigualdades.