A eleição parlamentar húngara de 12 de abril transformou Viktor Orbán de líder quase incontestável em alvo de um cenário político tenso e competitivo. Depois de 16 anos no poder, o primeiro‑ministro foi forçado a sair da retórica de comando calmo e voltar às ruas em campanha aberta, numa tentativa de conter a crescente dissipação de apoio que pesquisas recentes registram em favor da oposição.
Levantamentos de opinião deste início de ano mostram uma inversão de expectativas: em janeiro 44% dos húngaros acreditavam numa vitória do Fidesz; em março, segundo pesquisa citada pela imprensa, 47% passaram a ver o Tisza e seu líder, Peter Magyar, como favoritos, com sondagem mais recente apontando 58% contra 35%. Esses números sinalizam uma mudança de confiança que complica a estratégia do governo e reabre dúvidas sobre a capacidade de mobilização do bloco conservador liderado por Orbán.
Orbán deixou a calma habitual e reagiu com fúria a manifestantes durante comício em Győr.
O desgaste interno tem causas identificáveis. Denúncias de concentração de riqueza em torno de aliados e familiares — incluindo negócios ligados ao genro Istvan Tiborcz e ao amigo de infância Lörinc Meszaros — e contratos para grandes obras públicas alimentam a narrativa de clientelismo que a oposição explora. O governo alega nacionalização de recursos e preferência por empresas húngaras, mas a percepção pública de favorecimento e opacidade tem corrido à frente da explicação oficial.
Além do campo econômico, a campanha foi marcada por episódios de tensão: confrontos com manifestantes, relatos de intimidação de eleitores e até informações sobre propostas externas para desestabilizar a corrida, como as que envolveriam atores russos em cenários de desinformação. Em vez de neutralizar as críticas, essas contestações realçam pontos frágeis da administração Orbán e alimentam a narrativa oposicionista de que é hora de renovar a direção política do país.
No plano internacional, a possível derrota de Orbán tem implicações além da Hungria. Seu alinhamento com figuras como Donald Trump e Vladimir Putin e a resistência a posições majoritárias da União Europeia, sobretudo quanto ao apoio à Ucrânia, transformaram seu governo num modelo para movimentos nacionalistas europeus. A perda do Fidesz enfraqueceria uma referência estratégica para esses grupos e reequilibraria a influência de Budapeste no bloco.
Pesquisas recentes dão folga à oposição, com levantamentos apontando 58% contra 35% em favor do Tisza.
Para Orbán, o desafio agora é traduzir recursos de máquina partidária e base rural em votos capazes de reverter a tendência das pesquisas. Para a oposição, a tarefa é convencer eleitores rurais e indecisos de que uma mudança trará administração mais eficaz e menos clientelista. O resultado de 12 de abril não será apenas uma contagem de cadeiras: será um termômetro do apelo contínuo do populismo conservador na Europa e do custo político do desgaste acumulado em 16 anos de governo.