Dois em cada três brasileiros (67%) afirmam ter algum tipo de dívida, e 21% dizem estar com parcelas em atraso, indica levantamento do Datafolha realizado nos dias 8 e 9 de abril. A pesquisa ouviu 2.002 pessoas em 117 municípios; a margem de erro é de dois pontos percentuais. Entre modalidades de crédito, o uso do rotativo — acionado ao pagar somente o mínimo do cartão — aparece em 27% dos casos, com 5% usando-o com alta frequência. O rotativo tem juros médios mensais de 14,9%, segundo o Banco Central, e regras recentes limitam o endividamento do cartão ao dobro do montante original.
O estudo detalha onde a inadimplência se concentra: 41% dos que pediram empréstimo a familiares e amigos relatam estar em falta; 29% dos devedores do cartão parcelado disseram não conseguir pagar; empréstimos bancários e carnês de lojas aparecem com 26% e 25% das menções, respectivamente. Além disso, 28% afirmam estar em atraso com contas de consumo e serviços. Entre essas contas, telefone/celular/internet e tributos como IPTU e IPVA aparecem em 12% das citações de inadimplência, luz em 11% e água em 9%.
O Datafolha também construiu um índice de aperto financeiro: 27% vivem situação 'apertada' e 18% em condição 'severa' — totalizando 45% do universo pesquisado; 36% se situam em condição moderada e 19% em situações leves ou isentas. Para driblar a pressão no orçamento, 64% cortaram gastos com lazer, 60% reduziram idas a restaurantes e trocaram marcas, 52% diminuíram a compra de alimentos, e metade diz ter reduzido consumo de água, luz ou gás. Cerca de 40% deixaram de pagar alguma conta e 38% admitiram ter deixado dívidas sem pagamento.
Especialistas consultados pelo levantamento apontam que a ampliação do acesso ao crédito nas últimas décadas, combinada com juros mais elevados, elevou o comprometimento da renda e a exposição à inadimplência. O tema virou questão relevante na campanha eleitoral deste ano: o governo anunciou programas de renegociação e saques extraordinários do FGTS para tentar aliviar famílias endividadas. Os números do Datafolha, porém, sugerem que a pressão sobre consumo e renda persiste, um desafio concreto para a recuperação econômica e para a narrativa pública sobre evolução do bem‑estar das famílias.