O humorista português Ricardo Araújo Pereira, integrante do coletivo Gato Fedorento, transformou em matéria de coluna uma imagem gerada por inteligência artificial publicada por Donald Trump, em que o ex-presidente aparece pousando a mão na testa de um enfermo. Araújo usa o episódio para um exercício de humor crítico: comparar a convicção grandiosa de lideranças contemporâneas a delírios históricos, lembrando que, depois de críticas, Trump disse não se ver como Jesus —afirmação que não apagou o efeito simbólico da peça visual.

Na coluna, o autor recorre à literatura —Machado de Assis e a figura do doutor Simão Bacamarte— para apontar a repetição de um padrão: líderes que projetam sobre si missões redentoras e, ao mesmo tempo, rotulam adversários como mentalmente instáveis. Araújo cita, em tom irônico, que o leque de criticados pelo alvo de tais diagnósticos já inclui nomes tão distintos quanto Tucker Carlson, Georgia Meloni e até o papa, amplificando o caráter performático da estratégia.

Além do humor, o episódio tem implicações políticas. Imagens tratadas como propaganda pessoal por meio de IA alimentam polarização e complicam a narrativa pública sobre responsabilidade e credibilidade. Ao transformar-se em figura de cura ou messiânica, um líder pode mobilizar apoiadores, mas também reforçar descrédito institucional e abrir espaço para acusações de teatralização do poder —um custo político real quando aliados e instituições precisam responder a gestos simbólicos tão contundentes.

A leitura de Araújo Pereira combina sátira e alerta: a grande literatura já previa esse teatro de certezas, só que, brinca o colunista, Machado falhou na cor —a Casa Verde de Bacamarte virou, no cenário contemporâneo, uma Casa Branca. A comparação, além do humor, pede reflexão sobre os limites entre representação, manipulação e autoridade pública.