Augusto Cury formalizou nos últimos dias a filiação ao Avante e a pré-candidatura à Presidência, apresentando um discurso centrado no empreendedorismo e na preparação para a transformação trazida por automação e inteligência artificial. Médico de formação e autor de grande sucesso comercial, Cury evita rótulos como ‘coach’ ou mera autoajuda, insiste em se ver como um estudioso da mente e promove sua chamada Teoria da Inteligência Multifocal — um quadro teórico que, segundo pesquisadores da área, não tem reconhecimento acadêmico consolidado. Ele também afirma que sua trajetória pessoal e sua obra lhe dariam autoridade para propor soluções educativas e comportamentais para desafios econômicos e sociais.
No plano político, Cury tenta se posicionar como alternativa à polarização entre Lula e Bolsonaro, descrevendo o país como dominado por famílias políticas e propondo uma voz de centro. Entre as bandeiras que apresenta estão a criação de clubes de empreendedorismo em todo o país e medidas de preparo para a chamada “revolução digital”. Na agenda institucional, defende mudança no Judiciário, incluindo a ideia de mandatos limitados — de até oito anos — para ministros do Supremo, e diz repudiar discursos de violência como resposta à criminalidade. A combinação de temas técnicos e mensagens morais compõe sua tentativa de atrair um eleitorado que busca novidade sem o viés radical.
O desafio prático, porém, é grande. Em levantamentos recentes do instituto Genial/Quaest, Cury aparece com cerca de 2% das intenções de voto, um nível que o coloca fora da dianteira e indica pouca margem de crescimento no cenário atual. Analistas lembram que sua presença pública é mais de palestrante e influenciador do que de líder político tradicional, o que limita capilaridade em estruturas partidárias e coligações. Além disso, há sinais de contradição entre o discurso de não personalizar ataques e a estratégia declarada de provocar o Congresso para forçar reformas — tática que tende a exigir articulação política que hoje não parece estar disponível.
Do ponto de vista eleitoral, a candidatura de Cury representa um experimento: medir se um capital simbólico amplo na área cultural e de autoaperfeiçoamento se converte em força política real. Por ora, os números e a avaliação de especialistas apontam para uma candidatura periférica, com impacto reduzido sobre os cenários principais. Se quiser subir nas pesquisas, terá de demonstrar capacidade de agregar apoio partidário, traduzir suas propostas em medidas factíveis e reduzir contradições públicas que fragilizam credibilidade — especialmente em temas técnicos e acadêmicos onde suas afirmações são contestadas. Sem isso, resta a pergunta política central: será que o eleitorado que rejeita a polarização encontrará em Cury uma alternativa viável ou apenas mais uma opção outsider?