A última pesquisa do Datafolha confirma o que já vinha sendo sentido nas ruas: uma série de medidas com apelo direto ao eleitor não conseguiu deslocar, de forma relevante, a avaliação do governo. Segundo o levantamento, 45% dos eleitores disseram aprovar o trabalho do presidente, enquanto 51% o reprovam. A parcela que considera o governo ótima ou boa ficou em torno de 30%, praticamente estável em relação à rodada anterior, e o conjunto dos que o avaliam como ruim ou péssimo permanece maior do que o dos satisfeitos. Os dados foram coletados em terça (12) e quarta (13), dias em que o noticiário registrou acontecimentos com potencial eleitoral.

No espaço de poucos dias, o governo anunciou e divulgou medidas pensadas para ter efeito eleitoral imediato: a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, campanhas sobre redução da jornada de trabalho, o programa de renegociação de dívidas (Desenrola 2), o fim da chamada “taxa das blusinhas” e uma medida provisória que criou subsídios para combustíveis. Ainda assim, a reação do eleitor foi morna. Isso aponta para um problema clássico de comunicação pública: benefícios pontuais ou temporários têm dificuldade em alterar percepções moldadas por preocupações macroeconômicas e por uma sensação de que o custo fiscal pode comprometer a longo prazo a vida econômica do país.

Outro elemento que adicionou volatilidade ao noticiário foi a revelação de relações entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Embora o episódio seja relevante e mereça acompanhamento, o reflexo imediato nas intenções de voto foi limitado: em simulações, Flávio aparece tecnicamente empatado com Lula em um segundo turno, com cerca de 45% — e nomes alternativos à direita, hoje com desempenho fraco no primeiro turno, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, mostram capacidade de chegar a percentuais expressivos em cenários de segundo turno, o que mantém a eleição em terreno incerto e reforça a centralidade do antilulismo na disputa.

O ponto político central é que benesses isoladas não bastam quando o eleitor percebe que há problemas econômicos contínuos: pressões inflacionárias, juros elevados associados a expansão de gastos e o crescimento econômico em desaceleração foram mencionados como vetores de insatisfação. Para o governo, a pesquisa acende um alerta: é preciso traduzir medidas em narrativa crível de competência e sustentabilidade fiscal, sob pena de ampliar o desgaste e complicar a narrativa oficial à medida que a campanha avança. Para a oposição, a estabilidade dos números coloca a obrigação de transformar escândalos e desgaste em avanços eleitorais concretos. Em suma, o retrato do Datafolha é de um quadro politicamente estável, porém politicamente perigoso para quem aposta apenas em benefícios pontuais.