A prisão de mais de 30 pessoas em uma investigação sobre apostas ilegais —entre elas o influenciador MC Ryan SP— não surpreendeu a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). Segundo o presidente da entidade, as operações como a Narco Fluxo vinham sendo esperadas pela maior exposição do mercado clandestino e pela suspeita recorrente de uso das plataformas por organizações criminosas. A Polícia Federal informou que novas frentes de apuração devem ser abertas.

A ANJL estima que as bets ilegais correspondam a entre 40% e 50% do mercado de apostas no Brasil. Considerando o rendimento bruto declarado das casas credenciadas pelo governo, de R$ 37 bilhões no ano passado, a associação calcula que o setor clandestino mova cifras na casa dos bilhões —uma referência citada pela entidade foi de cerca de R$ 29,6 bilhões. Estudos privados divergem: um levantamento da Yield Sec apontou que o mercado ilegal já teria superado o regular em determinado trimestre; outro estudo, da H2, traz números mais baixos, na casa dos 30%. Para a ANJL, porém, o problema é real e amplo.

O setor regular, segundo a associação, enfrenta hoje não só dificuldades financeiras, mas sobretudo risco de imagem. As empresas autorizadas afirmam adotar mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, como checagem documental, reconhecimento facial e monitoramento de padrões de aposta com comunicação de alertas ao órgão competente. Ainda assim, a mistura entre fraudes simples, golpes digitais e possíveis vínculos com crime organizado torna a fiscalização complexa. Na prática, órgãos como a Anatel já bloquearam cerca de 30 mil sites no ano passado e mais 8 mil neste ano; a ANJL diz trabalhar também no bloqueio de cerca de 300 meios de pagamento irregulares.

Os desdobramentos expõem um nó regulatório e operacional: além de investigações criminais, há pressão por políticas mais eficazes para conter o fluxo financeiro das operações clandestinas. Para o setor legal, isso passa por medidas práticas —bloqueio efetivo de canais de pagamento, coordenação entre agências e maior agilidade regulatória— que minimizem o custo reputacional e econômico. Para o poder público, o desafio é equilibrar repressão ao crime e garantias de um mercado regulado que gere receita e segurança para o cidadão.