Executivos de grandes empresas de apostas afirmam ter rastreado, por iniciativa própria, o fluxo de pagamentos a sites de apostas não autorizados e identificado dez fintechs que recebiam esses depósitos. Segundo essas fontes, os dados foram encaminhados a autoridades federais para análise, mas a investigação formal avançou de maneira independente: em 28 de agosto foi deflagrada a operação Carbono Oculto, que mirou fundos e mandados de busca ligados a um esquema de fraudes, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.

Fontes do mercado dizem que, das dez fintechs mapeadas, três constavam na lista de alvos da operação. A iniciativa privada de rastrear pix e repassar informações ao governo revela, no mínimo, duas fragilidades: a dificuldade de fiscalização preventiva sobre plataformas digitais de jogo e a dependência de esforços do setor para mapear crimes financeiros que deveriam ser priorizados pelo Estado.

O material-base também traz estimativas do próprio mercado: o chamado mercado paralelo concentra praticamente a totalidade do volume de apostas no país, e desse montante cerca de metade segue para esquemas de lavagem; a outra metade seria golpe, com pagamento a sites que encerram operação e reabrem em outro endereço. A Anatel e a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda conseguem identificar e derrubar domínios — foram mais de 25 mil casos no ano passado —, mas o fechamento parece, para as empresas, apenas o último estágio de um ciclo que se reinicia rapidamente.

A proposta de delação premiada apresentada por Beto Louco ao Ministério Público de São Paulo acrescenta um novo elemento: ele oferece revelar participação, segundo sua versão, de servidores e magistrados no esquema. Se confirmado, o relato aumentaria a gravidade institucional das descobertas e ampliaria a urgência por respostas coordenadas entre órgãos reguladores, Ministério Público e controles internos do Estado. Para além do aspecto criminal, a história expõe custo econômico e reputacional — e a pressão por medidas mais efetivas de prevenção e rastro do dinheiro em um setor que, na prática, opera em larga escala fora da regulamentação.