O pavilhão brasileiro nos Giardini retoma sua presença internacional depois de reforma e assume, com a mostra Comigo Ninguém Pode, um tom de reparação simbólica. A ocupação reúne duas artistas cuja trajetória já ultrapassou fronteiras — Adriana Varejão, com obras em instituições como MoMA e Guggenheim, e Rosana Paulino, presente em coleções do Tate e Centre Pompidou — e as coloca em diálogo por meio de imagens que misturam o belo e o perturbador.

A escolha do título não é acidental: a planta comigo-ninguém-pode, que inspira a curadoria de Diane Lima, funciona como metáfora. As obras traduzem uma estratégia brasileira de responder ao trauma colonial por via da metamorfose — azulejos que se rasgam e revelam interiores que parecem carne, fotografias antigas reconfiguradas em teias, figuras que combinam corpo de mulher e inseto. É um conjunto que não apenas lembra as violências históricas, mas tenta recompor memórias a partir de símbolos fantásticos.

A intervenção no edifício modernista, incluindo novas aberturas de vidro, amplia a conversa entre interior e jardim: duas grandes esculturas — em bronze e cerâmica — serão instaladas ao ar livre, enquanto a viga que liga as salas receberá doze pinturas de anjos de Varejão. Essas decisões curatoriais transformam o pavilhão em espaço de cruzamento entre arquitetura, natureza e narrativa histórica, projetando para o público internacional uma leitura do Brasil centrada na reparação simbólica.

Mais do que confirmar o prestígio das artistas, a mostra sinaliza como instituições culturais brasileiras conseguem, em fóruns globais, articular críticas à história oficial do país por meio de linguagens estéticas potentes. Em vez de um inventário de ruínas, Comigo Ninguém Pode propõe metamorfose e continuidade: mulheres negras como tecelãs da memória, azulejos que guardam e expulsam feridas, um conjunto que força o visitante a olhar para cima, para as imagens, e para trás, para o passado que ainda molda o presente.