A cena mudou: longe das ruas engalanadas e dos apertos no peito durante o hino, parte do público brasileiro acompanha a seleção com o dedo no celular, calculando cenários e apostando em eliminações. A relação afetiva com a camisa cede espaço a decisões rápidas e apostas por palpites — reflexo de um espectador mais cético e consumista.
O retrato aparece no Datafolha: 46% acreditam que o Brasil será eliminado nas quartas e apenas 29% apostam no hexa. O pessimismo tem justificativas que vão além do folclore: a seleção coleciona resultados abaixo do esperado desde 2002, tropeços recentes contra rivais sem histórico de títulos e feridas como o 7 a 1 se somam a escândalos na CBF, à polarização clubística e a um desinteresse crescente pelo futebol como espetáculo coletivo.
Ainda assim, superstição e ídolos resistem. O levantamento aponta que 53% querem Neymar entre os escolhidos — preferência que desafia o cansaço e a crítica pública. O colunista citado lembra que, aos 34 anos, o atacante precisa reencontrar regularidade em campo e conter episódios que tiram foco do jogo. Esses apoios, por vezes, misturam fé, hábito e estratégia pessoal do torcedor-apostador.
O resultado é um ambiente menos de torcida e mais de mercado: apostas redesenham a experiência do jogo e reduzem o espaço para a confiança automática na seleção. Para recuperar a afeição coletiva, a equipe precisará vencer duas disputas: a das partidas e a de reconquistar a crença de um público que agora prefere apostar no desfecho a simplesmente acreditar.