Uma pesquisa Datafolha realizada em maio e encomendada pela ACT Promoção da Saúde aponta uma contradição relevante para formuladores de políticas: embora a ampla maioria dos entrevistados relacione tabagismo, consumo excessivo de álcool e alimentação rica em ultraprocessados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, apenas cerca de um terço apoia a adoção de medidas legais para reduzir esses fatores de risco. O levantamento entrevistou cerca de 3.900 pessoas em 117 municípios e tem margem máxima de erro de dois pontos percentuais.
Os dados mostram o reconhecimento dos riscos — 92% vinculam o tabaco às DCNTs (incluindo cigarros eletrônicos), 83% apontam o álcool, 80% citam ultraprocessados e 78% mencionam sedentarismo e poluição do ar — mas as respostas às soluções priorizam ações informativas e responsabilidade individual: 56% defendem que empresas esclareçam riscos e 53% citam campanhas nas mídias, enquanto 52% afirmam que cada pessoa deve cuidar da própria saúde. Para a diretora-executiva da ACT, os resultados refletem uma tendência de individualizar escolhas, sem reconhecer ambientes moldados por marketing e falta de regulação.
Há também um componente político com potencial efeito prático: grande parte da população diz que evitaria votar em candidatos apoiados por grandes indústrias nocivas — 77% no caso do tabaco, 68% para bebidas alcoólicas, 66% para agrotóxicos e 58% para fabricantes de ultraprocessados —, mas a entidade ressalta que muitos eleitores não conseguem identificar financiamento e apoios, o que reduz a pressão por transparência e limita a responsabilização política.
O levantamento ainda associa eventos climáticos extremos a maior risco de DCNTs para 81% dos entrevistados, alinhando percepção pública e alertas da OMS sobre impactos das mudanças climáticas na saúde. O quadro exposto pela pesquisa abre uma janela para ampliar o debate sobre regulação, transparência e políticas públicas — um desafio imediato para governos e Congresso que buscam combinar liberdade individual, eficiência regulatória e redução de custos sociais e sanitários.