Um levantamento inédito da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que compilou registros entre 2017 e 2024, revela que a caça ilegal no Brasil tem caráter estrutural e deixa rastros nas rodovias. Foram 314 eventos de apreensão, com pelo menos 9.479 animais interceptados e cerca de 9,3 toneladas de biomassa transportada para consumo. A prática continua proibida desde 1967, mas a clandestinidade e a circulação por estradas federais mostram que a norma não vem traduzindo dissuasão efetiva.

Os dados apontam padrões regionais e escolha de alvos. A Amazônia concentrou o maior número de ocorrências (116) e também a maior diversidade de espécies apreendidas (25). A Caatinga registrou o maior total de indivíduos — 7.950 animais —, com predomínio de aves em muitas apreensões; a avoante (Zenaida auriculata) ultrapassou a marca de mil exemplares. No Pampa, as apreensões envolveram maior biomassa, incluindo capivaras. No conjunto, 47 espécies foram identificadas, e sete figuram como ameaçadas, entre elas anta, queixada, tatu‑canastra, mutum‑de‑penacho e tracajá.

A seletividade observada — mamíferos concentrando a maior parte da biomassa apreendida, com pacas (70 exemplares), capivaras (48) e diferentes tatus entre os mais visados — sinaliza pressão persistente sobre populações valorizadas tanto para subsistência quanto para comércio ou recreação. O estudo reforça que apreensões rodoviárias representam apenas uma fração do problema: a caça é clandestina, difícil de mapear e tende a migrar conforme as populações locais são dizimadas, incentivando a exploração de espécies menores ou mais abundantes.

Do ponto de vista institucional e político, os números expõem falhas na prevenção, na inteligência e na coordenação entre agências. A dependência de apreensões para medir o fenômeno indica ausência de monitoramento sistêmico e de políticas públicas que ofereçam alternativas econômicas sustentáveis nas áreas rurais. Além do impacto ambiental, há custo social e econômico — perda de serviços ecossistêmicos, risco à saúde pública e danos ao turismo. Cabe ao governo e ao Congresso usar esses dados como base para revisão de estratégias de fiscalização, penas e programas de desenvolvimento local, sob pena de ver o empobrecimento da fauna transformar‑se em legado irreversível.