A campanha presidencial começou a ser disputada nos tribunais antes mesmo de as convenções oficiais abrirem a temporada eleitoral. Ajudada por vídeos gerados por inteligência artificial e por uma cultura de campanha negativa nas redes sociais, a ofensiva jurídica já entrou na rotina dos pré-candidatos e transforma a Justiça Eleitoral em campo de batalha paralelo às urnas.

Há um componente delicado: o próprio Judiciário virou alvo de ataques. Candidatos de direita ampliaram críticas ao Supremo, com Romeu Zema usando vídeos em IA contra ministros e recebendo resposta institucional — Gilmar Mendes pediu que Zema seja investigado no inquérito das fake news. Ao mesmo tempo, pedidos de retirada de material já trafegam pela Justiça: a equipe do presidente Lula solicitou a remoção de um vídeo de Flávio Bolsonaro que associava o presidente a corrupção, enquanto adversários retribuem com peças que tentam colar a rejeição do pai ao filho — um ex-ministro da Fazenda, candidato em São Paulo, chegou a chamá-lo de "Bolsonarinho".

O quadro complica-se porque o Tribunal Superior Eleitoral terá nova direção com ministros indicados por Jair Bolsonaro — Nunes Marques na presidência e André Mendonça como vice —, alimentando a expectativa de que a corte possa adotar postura mais permissiva em nome da liberdade de expressão. Essa perspectiva acende alerta sobre a uniformidade das decisões: maior leniência pode ser interpretada como assimetria de regras e fragilizar a percepção de neutralidade do árbitro do pleito.

O risco político é claro: a judicialização precoce consome recursos, desloca o debate público para litígios e pode produzir efeitos práticos sobre peças de campanha e sobre o próprio calendário eleitoral. Mais que disputas individuais, está em jogo a capacidade das instituições de conter desinformação e IA sem virar parte do conflito. Nas próximas semanas, os movimentos do TSE serão decisivos para definir se a Justiça conseguirá manter-se como instância reguladora ou se será absorvida pela disputa.