Carlos Adriano chega ao festival É Tudo Verdade com dois trabalhos que condensam sua trajetória formal: o longa Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas (103 minutos) e o curta Sem Título #11: Um Analecto à Mula. Ambos reafirmam a aposta do cineasta no experimental que dialoga com imagens de arquivo, literatura e teoria, procurando recuperar aquilo que o tempo e o esquecimento apagaram. A operação de resgate é também uma investigação estética: não se trata apenas de reunir memórias, mas de reconfigurá‑las pela montagem e pelo texto.

O ponto forte da empreitada é o rigor com que Adriano manipula a matéria visual. A montagem cria uma pulsação que reanima fotografias e filmagens raras — um procedimento já presente em trabalhos anteriores — e transforma fragmentos em argumento. Quando o diretor retoma o cantor Vassourinha, ou faz um inventário da presença da mula no cinema, percebemos um projeto autoral consistente: a repetição e a justaposição de signos viram instrumentos para revelar sentido, não meros ornamentos eruditos.

Politicamente, os filmes não se omitem. Através de imagens que conectam eventos antigos e episódios recentes, Adriano aborda mortes e violências cometidas contra palestinos — uma presença que ganha densidade simbólica em cenas perturbadoras, como o registro de um colono espetando a cabeça de um asno em um cemitério muçulmano. A opção por essa articulação entre iconografia sacra, cinema clássico (Bresson, Pasolini, Hitchcock, Welles) e acontecimentos contemporâneos faz do cinema um meio de memória crítica: menos culto nostálgico, mais ferramenta de denúncia e questionamento.

Há, contudo, limites que merecem apontamento jornalístico. A erudição e o gesto experimental, por vezes, deslocam o espectador menos acostumado ao cinema de vanguarda: o ritmo denso e as camadas de referências podem tornar a experiência hermética, exigindo uma leitura ativa para que o vínculo entre passado e presente seja plenamente percebido. Ainda assim, a dupla de filmes confirma a vitalidade de um cinema que opera na margem e insiste em não deixar o arquivo cair no esquecimento — uma resposta estética e política às urgências do presente.