A casca do grão de café, tradicionalmente tratada como resíduo, começa a ser reposicionada como matéria‑prima. Pesquisa da engenheira de alimentos Lívia Lacerda de Oliveira, da Universidade de Brasília, apresentada na Semana Internacional do Café (SIC) em Belo Horizonte, mostra que a casca pode substituir até 30% da farinha de trigo em cookies sem necessidade de aditivos; o estudo teve patente registrada. Além de biscoitos, foram exibidos chás de infusão e méis produzidos em lavouras cafeeiras, e marcas exploram aplicações em cosméticos e fragrâncias.

Para produtores, a diversificação altera a equação econômica do setor. Diretores da Abic e cafeicultores presentes na SIC destacaram que usar todo o potencial do café — da bebida aos derivados industriais — amplia a possibilidade de mercado e de preço agregado pela produção. Produtoras rurais veem no aproveitamento da casca uma chance de renda extra e de reduzir vulnerabilidade a volatilidades externas, como recentes medidas tarifárias no comércio internacional.

Do lado da indústria, há sinais de interesse: iniciativas que levam o café solúvel para consumo gelado e empresas que incorporam o grão em perfumes e cosméticos mostram caminhos comerciais. Mas a transição exige passos além da invenção: é preciso escalonar a produção da matéria‑prima, garantir padrões sensoriais e químicos estáveis (fase em que as pesquisas seguem atuando) e abrir canais industriais regulares. Patente e protótipos validam a viabilidade técnica, mas não asseguram adoção imediata em larga escala.

O potencial econômico existe, mas depende de articulação entre pesquisa, indústria e cadeia produtiva. Para o produtor, a possibilidade de vender além da saca tradicional significa preço agregado — desde que haja demanda e logística. A inovação aponta para uma estratégia pragmática de agregar valor e reduzir riscos, mas a consolidação do mercado exigirá investimentos, certificação e estratégias comerciais claras.