A pesquisa do Datafolha divulgada no sábado indica que a etapa de aquecimento da corrida presidencial acabou. O levantamento pegou o instante em que dois fenômenos políticos — a interrupção da ascensão de Flávio Bolsonaro e a mobilização de medidas pelo presidente Lula — começam a ser sentidos no tabuleiro eleitoral. São números de um momento: a maior parte das entrevistas foi feita antes que os diálogos entre o senador e o dono do Banco Master se tornassem tema central, o que transforma o resultado em uma fotografia precoce, porém relevante, da disputa.

O dado mais visível é a pausa no crescimento de Flávio, que até aqui vinha capitalizando parte do eleitorado ligado ao sobrenome Bolsonaro. A repercussão do pedido multimilionário a Daniel Vorcaro promete testar a resistência do eleitorado que migrou do pai para o filho. O índice de rejeição, embora ainda levemente inferior ao do presidente, já vinha alto e agora corre o risco de subir caso os desdobramentos ampliem associação direta com práticas de influência financeira. Em uma eleição que tende ao segundo turno, essa margem de rejeição pode ser decisiva.

Para Lula, o estudo mostra que a vantagem eleitoral convive com fragilidades concretas. O presidente acionou medidas de efeito imediato — pacote de segurança, revogação da chamada 'taxa das blusinhas' e uma medida provisória para conter o preço da gasolina — como um arsenal preventivo para recompor sua imagem. Ainda assim, há sinais de desgaste: 9% dos que declararam voto em 2022 dizem não repetir e parte da sua base tradicional, apesar de manter índices de intenção expressivos, já não aponta o governo como 'ótimo' ou 'bom'. Em suma, Lula recupera espaço institucional, mas não elimina riscos políticos.

O resultado do Datafolha, portanto, acende alerta para ambos os lados. Para a oposição, a tarefa é limitar os efeitos políticos e reputacionais do caso Vorcaro antes que a rejeição se consolide; para o governo, é transformar respostas imediatas em recuperação sustentada da avaliação pública. Em termos práticos, os dados complicam narrativas simplistas: mostram uma disputa em que reação rápida e gestão de imagem importam tanto quanto o acúmulo de votos de base, e antecipam meses de confronto direto, investigação e disputa por eleitores voláteis.