Com quase sete décadas de existência, o Centro Espírita de Umbanda Jesus Maria José é descrito por frequentadores como o “coração” do São João do Tauape. O terreiro reúne cerca de 150 pessoas em dias de gira e mantém atividades regulares de assistência, doação de alimentos e acolhimento de famílias vulneráveis. Hoje, porém, a permanência no terreno está ameaçada por uma disputa judicial que pode resultar em despejo.

A história da casa se confunde com a trajetória de mãe Balbina, que fundou o espaço em 1956 após uma experiência de cura e assumiu um papel central como liderança espiritual e social. De origem indígena (etnia Pitaguary), ela registrou legalmente muitos acolhidos como filhos e ampliou o atendimento a pessoas atingidas por enchentes e pobreza. Mãe Balbina morreu em 2021, vítima da pandemia, deixando o legado e a chefia espiritual para mãe Gardênia.

Se o imóvel for declarado de utilidade pública, a administração poderá intervir para preservar o terreiro.

O conflito de posse teve início nos anos 2000, quando surgiu um suposto proprietário que questionou os títulos do imóvel. Segundo relatos da direção do terreiro, uma ação de execução se baseou em documento que chegou a ser apontado como adulterado, com perícia que indicou irregularidades. Parte da área foi perdida na sequência, e a disputa continua sem resolução definitiva.

Como alternativa para garantir a permanência, a comunidade busca o tombamento do imóvel desde 2025, em instâncias municipal e estadual. A Secretaria Municipal da Cultura informou que o processo está em fase de planejamento na Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural, justificando o andamento pelo volume de pedidos. A Secretaria Estadual da Cultura não se manifestou até a publicação da reportagem.

O caso reúne dimensões culturais, sociais e econômicas: além de proteger um patrimônio de matriz afro-indígena, o tombamento poderia reduzir o risco de expulsão em um bairro pressionado pela especulação imobiliária. Para a comunidade, a demora burocrática tem efeito prático — serviços de apoio a famílias e a memória do local ficam em risco —, tornando a decisão administrativa um ponto de inflexão com consequências concretas para moradores e frequentadores.

A secretaria informou que o pedido está em fase de planejamento na coordenadoria responsável.