O artigo do oftalmologista Claudio Lottenberg — presidente da Conib e do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein e comissário para Antissemitismo do Congresso Mundial Judaico — aponta um problema editorial relevante: imagens e charges que recortam a realidade sem contexto transformam debate público em slogan. Ao comentar a charge de Laerte publicada pela Folha em 22 de abril, Lottenberg defende que a peça visual oferece uma leitura simplificada de um conflito profundo e, por isso, acaba distorcendo a compreensão do leitor.
A crítica não nega a dor palestina, que Lottenberg reconhece como real e digna de atenção. O ponto central é outra omissão: quando o debate parte do presente e apaga raízes históricas, perde-se a chance de julgar com honestidade. Nesse enquadramento, ele recorda fatos relevantes, como a presença judaica milenar na região e o processo de partilha de 1947 — cuja aceitação ou recusa pelas lideranças da época faz parte da genealogia do conflito — elementos frequentemente ausentes em narrativas que dominam parte do discurso público.
Lottenberg também chama atenção para o papel de atores regionais. O texto cita o apoio do Irã a grupos como Hamas e Hezbollah, apresentando isso como fator que alimenta guerras e complica a dinâmica local. Além disso, aponta contradições de setores que relativizam regimes teocráticos que perseguem dissidentes e minorias, ao mesmo tempo em que se colocam como árbitros morais do sofrimento alheio. Para o autor, transformar vítimas em categorias selecionadas de indignação é risco ético e político.
O alerta final é de natureza jornalística e institucional: publicar imagens sem contexto histórico — sobretudo em temas de alta carga simbólica — tem custo político e de credibilidade. Recortes visuais que simplificam alimentam polarização, facilitam leituras maniqueístas e reduzem direitos humanos a instrumentalizações ideológicas. Lottenberg cobra, assim, um jornalismo disposto a oferecer a história inteira, não apenas a metade que serve a um roteiro confortável.